Ttulo: A Outra face do Amor.
Autora: Barbara Cartland.
Dados da Edio: Livros Abril, So Paulo.
Ttulo Original: Lost Laughter.
Gnero: romance.
Digitalizao: Dores cunha.
Correco: Edith Suli.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de Pgina: Rodap.
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NOTA DA AUTORA
A priso que fica perto do Fleet Market, em Londres, era o lugar onde
ficavam detidos os credores que no pagavam suas dvidas at que fossem
postos em liberdade sob fiana ou at que parentes e amigos pagassem a
dvida deles.
Smollet, que foi preso por difamao e calnia, escreveu mais tarde um
livro onde contou o tratamento que recebiam os prisioneiros.
Tal como em outras prises, ali tudo dependia do fato de se ter dinheiro
para subornar carcereiros e poder comprar, atravs deles, tudo o que
fosse necessrio dos vendedores ambulantes e comerciantes das lojas da
vizinhana.
Entretanto, existia nas prises um perigo bem maior do que estar sem
dinheiro. Era a "febre carcerria", que na poca se alastrava por todas
as cadeias, devido s precrias condies de higiene e  gua
contaminada. Ser encarcerado na Fleet Prision significava no apenas a
perda da liberdade mas, com muita frequncia, a perda da prpria vida.
Este  o primeiro romance que escrevo, no qual o heri  um visconde.
Esse ttulo de nobreza data do comeo do sculo X e teve origem no cargo
de oficial ou tenente de um conde - vice-conde.
Henrique VI, coroado rei da Inglaterra e Frana, nomeou, em 1440, John
Lord Beaumont, visconde de Beaumont nos dois pases.
Tal ttulo tem primazia sobre todos os bares e s se tornou mais popular
no sculo XVII.
O filho mais velho de um marqus ou de um conde em geral recebe o ttulo
honorrio de visconde, mas nesse caso ele no pode participar da Cmara 
dos Lordes.

CAPTULO I
1818

O Visconde Ockley saiu da casa correndo, desceu os degraus num salto, e
pulou para a carruagem.
Pegou as rdeas e chicoteou os cavalos fazendo com que eles arrancassem 
to bruscamente que o cocheiro que os estava segurando mal teve tempo de 
saltar para o lado para no ser derrubado.
A carruagem afastou-se balanando  medida que os cavalos galopavam 
alameda abaixo, a uma incrvel velocidade, fazendo erguer o cascalho  
sua passagem e o visconde fez a curva de sada dos portes numa roda s.
Na estreita estrada rural o p subia enquanto ele passava como uma 
ventania deixando os aldees atnitos.
S depois de uns trs quilmetros  que os cavalos diminuram um pouco a 
velocidade. Ele pareceu nem notar, sentado na boleia com o olhar fixo na 
estrada, os olhos fuzilando e os lbios apertados num rcto de raiva.
Era um homem com uma bela aparncia, de traos bem feitos e bonitos, e 
ombros largos. Tinha um bom porte e era um pugilista de
destaque na Academia de Boxe Gentleman Jackson. Tambm montava muito bem 
e praticava equitao com destreza. Era um forte concorrente nas 
competies de salto de obstculos.
Portanto, tinha, inevitavelmente, muito sucesso com o chamado belo sexo. 
As mulheres da sociedade que frequentava viviam suspirando por ele e suas 
conquistas eram sempre comentadas.
Por sua vez, Niobe Barrington arrebatava coraes masculinos, o que no 
era de se admirar, sendo ela no apenas de uma beleza sem par mas tambm 
herdeira de uma considervel fortuna.
O pai dela, sir Aylmer Barrington, era um homem muito rico e todos sabiam 
disso, alis, ele prprio fazia questo de mostrar sua riqueza. Queria 
que a filha nica fosse sempre o centro das atenes e para isso dava 
bailes fabulosos, gastando enormes quantias com as festas. Fazia questo 
de hospedar todos os convidados.
Estava sempre disposto a oferecer hospitalidade a qualquer aristocrata 
que mostrasse desejo de frequentar sua casa desde que fosse solteiro, bom 
partido, e fosse um pretendente  mo de Niobe.
O visconde, que era conhecido por saber apreciar as mulheres belas, ficou 
cado de amores assim que viu Niobe pela primeira vez.
Ele tinha recebido o convite para ir  casa dela, por escrito, num papel 
timbrado um tanto pretensioso para seu gosto, e como no tinha nada para 
fazer naquela noite resolveu ir  manso de sir Aylmer, em Grosvenor 
Square, tal como vrios outros contemporneos seus. Entretanto, foi 
preparado para o pior; era muito ctico em relao a herdeiras, pois em 
geral elas no tinham nada mais que pudesse atrair a no ser uma enorme 
conta bancria.
Porm, logo ficou claro que com Niobe era muito diferente.
Ela era de uma beleza arrebatadora com os cabelos da cor do trigo maduro, 
olhos de um azul profundo, pele acetinada e fresca, capaz de inspirar 
grandes poetas.
Quando ela cravou aqueles olhos azuis nos olhos acinzentados do visconde, 
ele sentiu que estava perdido.
Daquele momento em diante, ele passou a procurar Niobe com um ardor que 
surpreendeu seus amigos mais ntimos.
Seus credores, entretanto, no ficaram apenas surpresos, ficaram 
entusiasmados e comearam a acalentar esperanas de receberem o dinheiro 
que lhes era devido, pois as contas do visconde cada ano aumentavam mais 
e ningum via possibilidade de receber.
Na verdade, o alfaiate dele chegou a abrir uma garrafa de vinho, para 
comemorar o fato com a esposa, quando ouviu comentrios de que o visconde 
estava prestes a conquistar uma das mais ricas herdeiras daquela 
sociedade.
- Eu no me importaria se ela no tivesse um tosto! - comentou o 
visconde com seu amigo mais ntimo, Frederick Hinlip.
- Mas aposto como ela no ia gostar de morar naquela sua manso caindo 
aos pedaos. Tenho certeza de que, com o dinheiro que tem, a primeira 
coisa que ela vai fazer  restaurar aquilo tudo - retrucou Freddy. - Alm 
disso, voc est precisando de uns cavalos novos...
O visconde ficou meio envergonhado.
- Eu lhe sou muito grato por ter me emprestado os seus, Freddy.
- Ora, no tem de qu. - O amigo sorriu para ele.
- Ela  a coisa mais linda que j vi! - exclamou o visconde num mpeto, 
mudando por completo de assunto.
- Concordo plenamente com voc, mas no se esquea que para casar com 
Niobe voc tem primeiro que conquistar o pai dela.
- O que quer dizer com isso?
- Sir Aylmer  rigoroso e severo,  um osso duro de roer. Ele quer o 
melhor para Niobe e nesse aspecto  inflexvel. E, pensando bem, no se 
pode censur-lo por isso...
- Est insinuando que eu no estou  altura da escolha? - perguntou o 
visconde.
-  que ouvi dizer que Porthcawl tambm  pretendente.
- Ah, aquele bobalho! - zombou o visconde com desprezo. Parece que no 
tem fora nem para um aperto de mo e tem cara de peixe morto!
- S que ele  um marqus!
- Niobe nem sequer vai olhar para ele! S de pensar, me d vontade de 
rir! - disse o visconde com arrogncia.
Contudo, no ntimo, sentiu-se apreensivo. Lembrou-se de que Niobe
havia lhe dito h uma semana que seu pai no estava muito propenso a 
aceit-lo como genro.
- O que est querendo dizer com isso? - perguntara na ocasio.
- Exatamente o que eu disse - retrucou Niobe. - Papai acha que voc  
irresponsvel demais para ser um bom marido. Alis, meu querido Valient, 
receio que ele v proibi-lo de vir aqui.
- Se ele fizer isso, ns fugiremos para casar! - disse o visconde com 
firmeza.
Niobe fitou-o de olhos arregalados e ele continuou:
- Vou conseguir uma licena especial de casamento e ns poderemos nos 
casar na primeira igreja que encontrarmos no caminho. Depois que voc se 
tornar minha esposa, seu pai no poder fazer mais nada.
- Ele ficar furioso! - disse ela. - Alm disso, eu quero um casamento 
grandioso com damas de honra e uma festa espetacular depois da 
cerimnia...
- Voc ter isso tudo, minha querida, se seu pai der o consentimento 
dele. Mas, se ele recusar, no teremos outro recurso... s fugindo!
Niobe ergueu-se do sof onde estavam sentados e andou com infinita graa 
at a janela que dava para o jardim dos fundos, consciente de que, parada 
ali, com o sol fazendo brilhar seus cabelos dourados, ela era a prpria 
imagem da beleza e seduo.
O visconde contemplou-a como se estivesse enfeitiado.
- Ah, como voc  linda... to linda, meu amor! Eu no posso perder voc!
Ela sorriu com certa vaidade e num instante ele se ergueu e tomou-a nos 
braos.
- Eu amo voc, Niobe!
Depois, ele a beijou sedento e apaixonado e ao sentir que ela 
correspondia com a mesma intensidade, certificou-se de que no havia o 
que temer em relao ao futuro deles.
Quando os dois j estavam com a respirao ofegante, Niobe afastou-se 
dele e falou, depois de alguns instantes.
- Esqueci de lhe dizer que vamos para nossa propriedade de campo neste 
fim de semana. Papai organizou um outro baile para mim e convidou 
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nossos vizinhos em Surrey. Vai ser uma festa incrvel, com fogos
de artifcio, gndolas no lago, uma orquestra cigana no jardim, alm da
outra que vai tocar no salo de baile!
- No momento, estou detestando bailes! - disse o visconde com petulncia. 
- Quero voc s para mim. No acha melhor eu falar com seu pai e tratar 
de nosso casamento logo? Quero, casar antes do fim da temporada!
Niobe agitou as mos no ar, horrorizada.
- No, no! Isso s serviria para enfurec-lo e fazer com que ele me 
proibisse definitivamente de ver voc. - Ela fez uma pausa e acrescentou: 
- ele j no vai convid-lo para o baile.
- Quer dizer que seu pai me desaprova a esse ponto? - perguntou o 
visconde, incrdulo.
Jamais em toda sua vida tinha sido proibido de entrar numa casa e achava 
incrvel que sir Aylmer ousasse fazer isso com ele. Niobe baixou as 
plpebras.
- O problema, Valient,  que papai acha que estou comeando a gostar 
muito de voc...
O olhar do visconde se iluminou.
-  exatamente isso que eu quero que acontea! Diga que me ama! Quero 
ouvir de voc.
- Eu acho que amo voc... tenho quase certeza - respondeu Niobe -, mas 
papai diz que amor  uma coisa e casamento  outra.
- O que ele est querendo dizer com isso? - perguntou o visconde, bravo.
Niobe suspirou baixinho.
- Papai quer um casamento excelente para mim... com algum muito 
importante!
O visconde arregalou os olhos, atnito.
- Voc est querendo dizer que seu pai no me acha socialmente 
importante? - disse ele, devagar, destacando bem as palavras. - Pois 
fique sabendo que os Ockley esto entre as famlias mais importantes da 
aristocracia dessa regio! No h um s livro de histria que no 
mencione nosso nome!
- , eu sei - disse Niobe depressa -, no  por isso.  que papai tem
outras ideias.
- Que ideias? - perguntou ele, com voz sinistra. Niobe movimentou as mos 
delicadas e expressivas.
- Quer dizer que existe algum que seu pai acha melhor do que eu? - 
insistiu o visconde.
Niobe no respondeu e ele a envolveu nos braos outra vez.
- Voc  minha. Voc me ama e sabe disso! Precisa ter coragem, meu amor, 
para dizer isso a seu pai,
- Ele no me daria ouvidos.
- Ento, vamos fugir.
O visconde ia comear a explicar o plano de fuga quando Niobe ergueu o 
rosto angelical e fitou-o nos olhos, dizendo:
- Beije-me, Valient! Eu adoro seus beijos e estou com medo de perder 
voc...
O visconde beijou, -a com ardor e acabou esquecendo a conversa e os 
planos. S quando j estava indo embora de Park Lane  que ele se lembrou 
que afinal no haviam combinado nada. Por isso escreveu a ela uma carta
apaixonada e fez com que seu criado a entregasse s escondidas  criada
de quarto de Niobe para que no fosse interceptada por sir Aylmer.
Como resposta recebeu duas linhas escritas por Niobe dizendo que ele 
fosse encontr-la na casa de seu pai, em Surrey, na prxima segundafeira.
O visconde sabia que o baile para o qual no fora convidado seria no 
sbado, e concluiu que Niobe queria v-lo a ss, depois que os convidados 
tivessem ido embora.
Contudo, era enervante saber que a maioria de seus amigos iria  festa. 
Muitos estavam at hospedados na manso de sir Aylmer e outros em vrias 
propriedades vizinhas.
Como no tinha nada para fazer, resolveu ir para sua casa em 
Hertfordshire, apesar de saber que seria deprimente encontr-la naquele 
estado de decadncia. Assim que o dinheiro de Niobe fosse para suas mos, 
pretendia restaurar a casa e devolver-lhe a beleza de antigamente.
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A guerra dilapidara a fortuna da famlia e quase levara o pai do visconde
 runa total. Ele havia investido uma grande soma sem pensar em fazer
uma reserva de capital.
O visconde lutou na guerra com o exrcito de Wellington e passou um ano
com o Exrcito de Ocupao. Seis meses depois de ter voltado 
Inglaterra, seu pai faleceu e Valient descobriu que herdara apenas uma 
velha propriedade, caindo aos pedaos por falta de reparos, uma montanha 
de dvidas e nada na conta bancria para que pudesse sald-las.
Devido aos longos anos que passara na guerra, Valient queria divertirse 
para compensar o precioso tempo de sua juventude que perdera guerreando. 
Por isso, protelou a soluo do problema financeiro e entregou-se com 
entusiasmo aos prazeres e distraes que Londres podia oferecer.
Sem se preocupar com despesas, ele reabriu a casa da famlia, em Berkeley 
Square, apesar de saber que estava totalmente hipotecada, e passou a 
viver como um lorde embora estivesse de bolsos vazios.
Depois de uns dois anos nessa vida, comeou a pensar seriamente que devia 
fazer algo para resolver aquela situao, e era bvio que s um casamento 
com uma rica herdeira poderia salv-lo. Alis, essa soluo no era 
novidade na famlia Ockley.
A maioria das geraes tinha seguido o impulso da razo e no do corao, 
escolhendo uma esposa que trouxesse dinheiro ou terras. Olhando com 
cinismo a galeria de retratos da famlia, o visconde costumava comentar 
para si mesmo que dinheiro tinha sido a nica vantagem daquelas esposas, 
pois eram quase todas mulheres feias ou sem nada de extraordinrio.
Enquanto estava lutando em Portugal ou na Frana, vrias noites, no 
silncio do acampamento, ele se pusera a pensar romanticamente no tipo de 
mulher com quem gostaria de se casar.
No que ele fosse convencido, mas tinha conscincia de que era um belo 
homem e que fazia palpitar os coraes femininos.
Queria uma esposa que tambm fosse bonita para que juntos tivessem belos 
filhos, cujos retratos futuramente viessem a enriquecer aquela galeria da 
famlia.
Niobe poderia ter sido uma resposta s suas preces. Sabia, pela sua vasta 
experincia com mulheres, que ela se sentia atrada por ele e que
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seus beijos a deixavam excitada. Havia um brilho nos olhos dela quando
estavam juntos que garantia a conquista total daquela linda mulher.
Na segunda-feira de manh, dirigiu-se para Surrey, impaciente para ver 
Niobe. Mas, apesar disso, preocupou-se em no forar demais os cavalos 
lembrando-se que eles pertenciam a Freddy.
Passara todo o fim de semana arquitetando o plano de fuga e apalpava com 
ar sonhador a licena de casamento que estava bem guardada no bolso de 
dentro de seu elegante palet, que, alis, ainda no tinha sido pago.
Enquanto dirigia a carruagem, ia falando com seus botes:
Sir Aylmer pode ficar aborrecido, mas depois que Niobe e eu estivermos 
casados, no vai poder fazer mais nada... ainda bem que ela j tem o 
dinheiro no nome dela e nem deserd-la ele vai poder.
Tudo parecia estar correndo exatamente como ele queria. Havia s uma 
pontinha de incerteza e apreenso porque Niobe tinha insistido num 
casamento grandioso, com uma estrondosa festa. Ela falara vrias vezes 
nisso. Valient lembrava-se muito bem de t-la ouvido contar que o 
prncipe regente fora ao casamento de uma das suas amigas e que ficaria 
infelicssima se ele no fosse o convidado de honra do casamento dela.
O visconde, sem dvida, j havia encontrado o prncipe em vrias 
ocasies, mas no tinha a menor inteno de estreitar relaes. Achava 
terrivelmente tediosos aqueles jantares em Carlton House e os seres 
musicais que se seguiam faziam-no bocejar.
O que ele gostava mesmo era de frequentar os sales de jogos, das 
noitadas nas casas de prazer e das tabernas onde danava, sempre 
acompanhado de seus melhores amigos. Ou, ento, de participar das 
corridas de obstculos, das corridas de cavalo em Newmarket ou Epson e 
das noitadas de bebedeiras que sempre aconteciam depois de um dia de 
turfe.
- Tenho certeza de que Sua Alteza ficar encantada em comparecer ao nosso 
casamento -, dissera o visconde, na ocasio, apenas numa atitude de mera 
cortesia.
Mas sabia que isso era pouco provvel de acontecer. Entretanto, tinha a 
certeza de poder proporcionar outros prazeres a Niobe, para compensla 
dessa frustrao.
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Quando entrou na alameda bem cuidada da propriedade e viu,  distncia, a
enorme manso de sir Aylmer, o visconde esqueceu-se de tudo o que estava
pensando para s se lembrar da beleza de Niobe e de seu desejo de t-la
em seus braos.
Niobe estava  espera dele no salo, decorado to pomposamente que 
chegava s raias do mau gosto. Contudo, ele no tinha olhos para isso, 
naquele momento, s para Niobe que ergueu-se do sof perto da janela e 
foi ao encontro dele, mais linda do que nunca.
O vestido que usava combinava com a cor dos cabelos e realava as formas 
perfeitas de seu corpo. Embora estivesse usando jias demais para uma 
jovem que est no campo, o visconde s reparava naqueles lbios femininos 
e suaves.
Quando chegaram perto, ele a abraou.
- No, Valient. No! - disse Niobe empurrando-o com suas mos alvas e 
delicadas.
- No? Por qu... - perguntou o visconde, desconfiado.
- Voc no deve me beijar... precisa ouvir o que tenho a lhe dizer.
- Eu tambm tenho muita coisa a lhe dizer.
- Mas primeiro deve me ouvir.
Querendo agrad-la, ele preparou-se para escutar.
- Receio que isso v aborrec-lo, Valient, mas papai acha melhor eu mesma 
lhe contar.
- Contar-me o qu? - perguntou ele, fazendo esforo para se concentrar no 
que ela dizia e para controlar o impulso de estreit-la nos braos e 
beijar aquela boca macia e tentadora.
- Contar-lhe que... - disse Niobe - eu prometi casar com o marqus de 
Porthcawl.
Por um instante o visconde no conseguiu entender, era quase como se ela 
tivesse falado numa lngua estranha. Depois,  medida que foi assimilando 
as palavras e entendendo o significado, sentiu-se como se tivesse levado 
uma pancada na cabea.
- Por acaso est brincando? Isso  uma pilhria?
- No,  claro que no. Papai est muito satisfeito. O casamento foi 
marcado para o ms que vem.
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- No acredito! E, depois, se isso foi deciso do seu pai, ento vamos 
fazer o que tnhamos combinado... vamos fugir!
Pela expresso de Niobe ele sabia, mesmo antes de acabar de falar, que 
ela no iria com ele. Apesar disso quis ouvi-la falar.
- Eu tenho uma licena especial - continuou ele. - Ns nos casaremos na 
primeira igreja e depois ser impossvel seu pai tir-la de mim.
- Sinto muito, Valient, sabia que voc ia ficar aborrecido com isso... Eu 
amo voc e gostaria de ser sua esposa, mas no posso recusar o pedido do 
marqus.
O visconde respirou fundo.
- O que est querendo me dizer  que esteve me iludindo esse tempo todo, 
mantendo-me na reserva, caso Porthcawl no fizesse o pedido. Agora que 
ele pediu sua mo, voc simplesmente se desfaz de mim como se eu fosse um 
brinquedo velho!
- Sinto muito, Valient - repetiu ela -, gostaria que voc entendesse e 
que pudssemos ser amigos depois que eu me casar.
Ento, o visconde perdeu a calma de uma vez e no se controlou mais. Ele 
sempre tivera gnio forte e explosivo, era uma caracterstica dos Ockley, 
s que no se manifestava com frequncia. Mas tambm quando isso 
acontecia era uma verdadeira exploso vulcnica.
Mais tarde, o visconde mal conseguia se lembrar de tudo o que dissera 
para Niobe. S sabia que no tinha gritado. Falara baixo, mas com 
intensidade e usando palavras que feriam como aoite. Ela ficara 
completamente plida e no respondera nada.
Quando sentiu que j havia dito tudo, ele saiu da sala feito um furaco, 
querendo afastar-se depressa daquela mulher que o trara.
Depois de algum tempo dirigindo a carruagem, ele comeou a se acalmar e a 
respirao ficou mais fcil. Percebeu, ento, que estava correndo demais, 
os cavalos estavam suados e ele prprio estava com calor. Olhou de 
relance para o cho da carruagem e notou ali uma manta que no havia 
antes. Estava imaginando quem pusera aquilo ali, num dia to quente como 
aquele, quando notou um movimento sob a coberta e viu, atnito, aparecer 
um rosto.
Era um rosto oval e pequeno com olhos grandes e negros que o fitavam 
apreensivos e splices.
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- Posso... sair daqui agora? - perguntou uma voz delicada. Estou morrendo 
de calor.
- Quem  voc? - perguntou o visconde, rspido. - E que diabos est 
fazendo aqui?
A manta foi jogada para o lado e surgiu uma garota delgada e frgil que
subiu na boleia e sentou-se ao lado do visconde.
O vestido dela estava todo amarrotado e os cabelos negros em desalinho. O 
visconde fitou-a perplexo e depois olhou de novo para a estrada.
- Creio que voc deve ter algum motivo para estar na minha carruagem, no 
? Como explica isso?
- Estou fugindo.
- De quem?
- Do meu tio Aylmer.
- O qu? Est me dizendo que sir Aylmer Barrington  seu tio? disse o 
visconde furioso.
- Nesse caso, mocinha, pode descer imediatamente! No quero ter mais 
nenhum relacionamento com os Barrington pelo resto da minha vida!
- Sabia que seria essa sua reao.
- Sabia? Como, se voc no viu o jeito como fui destratado? Ou por acaso 
voc est envolvida nessa trama diablica para me insultar?
- No, no tenho nada a ver com isso.  que acompanhei tudo, de longe, e 
vi o modo como voc estava sendo mantido na reserva, caso o marqus no 
fizesse o pedido de casamento.
O fato da garota ter dito o que ele havia pensado fez com que o visconde 
ficasse mais furioso e puxou as rdeas com violncia fazendo os cavalos 
pararem.
- Saia j daqui! - explodiu ele. - Vamos, desa e v para o inferno! E 
diga a seu tio e a sua prima que eu desejo que eles apodream no inferno!
O modo como falou e a expresso de raiva no rosto dele deveriam ter 
intimidado a garota, mas em vez disso ela o olhou cheia de comiserao e 
disse:
- Sinto muito, mas, na verdade, embora voc possa no acreditar em mim,
eu acho que se livrou de boa. Teve sorte de no ter ficado com ela.
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- Que diabos quer dizer com isso?
- Voc no conhece Niobe como eu conheo. Ela  invejosa, m, vingativa e
interesseira. Ia fazer voc muito infeliz.
- No acredito que Niobe seja nada disso, e se continuar falando assim,
vou acabar esbofeteando voc! - ameaou.
- No seria nenhuma novidade para mim - respondeu ela, sem se alterar. -
Hoje de manh, mesmo, tio Aylmer me bateu e foi ento que decidi fugir.
Por isso estou aqui.
- Bateu em voc? No acredito!
- Posso lhe mostrar as marcas, se quiser. Ele sempre bate em mim. A
primeira vez, logo que vim morar aqui, ele me bateu porque Niobe mandou,
depois se acostumou e eu vivo apanhando por qualquer coisinha.
O visconde olhou para ela, perplexo. Estava pasmo. Era difcil acreditar
naquilo, mas a garota estava falando com sinceridade, quanto a isso no
tinha dvidas. Contemplou-a mais detidamente. Era to jovem, quase
parecia uma criana.
- Que idade voc tem?
- Dezoito anos.
- E qual  seu nome?
- Jemima Barrington.
- Ento, voc  mesmo prima de Niobe?
- Minha me era irm de sir Aylmer. Ela fugiu com o meu pai para se 
casar, eles eram primos distantes. Eram muito pobres mas muito felizes. 
Quando eles morreram e eu fiquei rf, tio Aylmer me levou para morar com 
ele. Foi por isso que disse que voc escapou de boa. Eu os conheo bem.
Quando o assunto voltou para ele de novo, o visconde ficou novamente 
muito irritado.
- Sinto muito, pela sua situao, mas voc sabe que eu no posso me 
envolver com seus problemas. O mximo que posso fazer  lev-la para onde 
voc quiser ir, contanto que ningum fique sabendo que fui eu.
- No acho que algum v se interessar em saber de mim. Niobe no gosta 
de mim e tio Aylmer me considera um fardo, um estorvo. Suspirou baixinho, 
antes de acrescentar: - Afinal, quem  que se preocupa com parentes 
pobres?
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- Voc  pobre?
- Sou. Mame sempre deu mais importncia ao amor do que  riqueza. Ela 
foi a nica exceo da famlia.
O visconde no pde deixar de concordar com ela nesse ponto. Niobe 
preferira um ttulo de nobreza mais importante do que o dele. Como se 
adivinhasse o pensamento dele, Jemima disse:
- Niobe  esnobe como o pai! O sonho dela  estar entre as esposas dos 
pares do reino, e se por acaso agora aparecesse um duque, pode estar 
certo de que ela se livraria do marqus como se livrou de voc!
- J lhe disse para no falar assim!
- Um dia voc ainda vai me dar razo e ver que estou falando a verdade.
O visconde ia retrucar mas refreou o impulso achando que seria indigno da 
parte dele.
- Para onde quer que eu a leve? - perguntou, segurando de novo as rdeas.
- Para onde voc quiser ou puder.
- Voc tem dinheiro?
- S dois guinus que roubei de cima da cmoda de tio Aylmer. O visconde 
largou as rdeas e olhou para ela.
- E voc me diz, assim, com essa cara, que est saindo para enfrentar o 
mundo, sozinha, s com dois guinus? Voc  maluca?
Houve um pesado silncio e depois Jemima falou, num tom de voz amargurado 
e cheio de comoo:
-  a nica sada que me resta. No posso continuar sendo espancada e 
maltratada... levando uma vida desesperadamente... infeliz.
A ltima palavra foi dita num soluo comovente.
- Voc no tem nenhum outro parente na casa de quem possa ficar? - 
perguntou, preocupado.
- Tenho outros parentes, mas nenhum ficaria comigo. Todos tm muito medo 
de tio Aylmer e logo me mandariam de volta para a casa dele.
- Era o que eu tambm devia fazer.
Ele franziu o cenho, pensando no que fazer, mas a simples ideia de voltar 
e ter de encarar Niobe de novo, ou o pai dela, fez o sangue subir a sua 
cabea.
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- Que praga! Por que  que voc foi me aparecer logo agora? Eu no quero 
voltar l - disse ele, furioso -, estou louco para sumir e mostrar quela 
sua priminha interesseira o que eu penso dela! - Ele riu com desprezo. - 
Eu disse a ela como me vingaria e  exatamente o que pretendo fazer.
- O que voc disse a ela? - perguntou Jemima, curiosa. O visconde 
semicerrou os olhos.
- Eu disse que me casaria com a primeira mulher que encontrasse, s para 
no deixar que ela me humilhasse diante de todos!
Os olhos dele faiscavam de dio e ele olhava fixo para a estrada sem ver 
nada. Estava lembrando do rosto de Niobe quando ela dissera que ia se 
casar com o marqus.
Ento, ao seu lado, uma voz suave, um tanto hesitante disse:
- Se... foi isso o que voc falou... ahn... eu sou a primeira mulher que 
voc encontrou...
O visconde virou a cabea para fit-la.
- Meu Deus...  mesmo! E talvez seja at maior a vingana se eu me casar 
com uma Barrington...
Ele olhou para a frente de novo, com ar pensativo, e ouviu Jemima dizer:
- Nada deixaria Niobe mais furiosa do que... o fato de eu me casar antes 
dela... e, ainda mais, com voc!
O visconde deu uma risada sinistra e um tanto assustadora.
- Deve haver uma igreja aqui por perto.
Ele chicoteou os cavalos, com certa satisfao ntima de ter encontrado o 
melhor meio de se vingar da mulher que o humilhara. Como ele era h muito 
tempo um solteiro convicto, sabia que aquele casamento repentino 
causaria sensao e comentrios nos clubes de St. James. Todos sabiam que 
ele estava cortejando Niobe; por isso j deviam estar fazendo apostas 
para saber se ele conseguiria ou no conquist-la, portanto seria uma 
surpresa bastante irnica, alis, quando ele anunciasse que se casara com 
a prima dela.
O visconde sabia muito bem que Niobe gostava de ser sempre a figura 
central de todos os acontecimentos importantes. E apesar de ela estar 
agora noiva de um marqus esse fato ia passar para segundo plano quan20
do todos soubessem que o visconde, que a cortejava, casara-se com a prima
dela. O visconde seria o principal comentrio da temporada e Niobe
ficaria furiosa.
Quando parou a carruagem diante de uma igrejinha de pedra, o visconde 
tinha um sorriso quase cruel nos lbios.
- Aqui est bom - disse ele.
Olhou em redor e chamou uns garotos que brincavam ali perto para que 
segurassem os cavalos.
- Voc pretende mesmo... casar comigo? - disse Jemima, com voz tmida.
- Creio que essa  a melhor soluo. Voc s tem a ganhar! Ou ser que 
prefere ficar vagando pelas caladas de Londres?
- No...  claro... Eu lhe fico muito grata.
- Pois no precisa. S estou fazendo isso para dar uma lio  sua 
priminha e espero que ela sofra bastante.
- Sem dvida, vaj sofrer mesmo!
O visconde desceu da carruagem, sem se preocupar em ajudar Jemima, e 
perguntou a um dos garotos onde estava o vigrio.
- Est na igreja, fazendo um batismo, sir - respondeu o moleque. Ele 
atravessou o porto de ferro em direo  igreja e deixou Jemima
para trs. Ela desceu sozinha da boleia, amarrou o chapeuzinho e foi 
atrs dele.
Quando chegou ao porto, esperou sairem um homem e uma mulher carregando 
um beb, seguidos de vrias pessoas. De longe viu o visconde conversando 
com o vigrio e mostrando a ele uma folha de papel. Nervosa, ajeitou o 
vestido amarrotado e quando o visconde lhe fez um sinal ela se aproximou 
e foram at o altar.
- Eu disse a ele que seu primeiro nome tinha sido inadvertidamente 
omitido na licena especial - disse o visconde, em voz baixa e tom 
impessoal - por isso ele vai chamar voc de Jemima Niobe.
Jemima fez que sim com a cabea. Estava plida e com olhar assustado.
O visconde nem olhou para ela, foi andando para o altar sem sequer lhe 
oferecer o brao. Jemima apressou o passo e colocou-se ao lado dele.
A cerimnia foi curta e rpida. Na hora da troca de alianas, o visconde 
percebeu que se esquecera desse detalhe, por isso tirou um anel com o
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braso da famlia, que usava no dedo mnimo, e colocou-o no dedo do meio 
da mo de Jemima, e mesmo assim ainda ficou largo
O Vigrio declarou-os marido e mulher, o visconde pagou a taxa de  
casamento e foi saindo sem nem prestar ateno ao padre que o
cumprimentava e desejava felicidades.
- Obrigada muito obrigada - disse Jemima, e correu atrs do marido com
medo de que ele a deixasse ali.
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CAPTULO II

Jemima acordou num sobressalto, achando que dormira demais e que estava
atrasada, mas quando abriu os olhos e viu aquele quarto diferente
lembrou-se que estava em outro lugar.
Percebeu que algum havia entrado no quarto e logo viu que era uma 
criada, abrindo as cortinas.
- Que horas so? - perguntou.
- Mais de nove horas, milady.
Jemima quase perdeu a respirao. Ser tratada de milady era uma 
confirmao de que tudo o que acontecera na vspera era realidade, embora 
parecesse sonho.
Estava cansada quando chegaram em Londres, mas no tinha dito nada, pois 
no estava acostumada a falar de si nem a esperar que algum se 
interessasse por ela.
Os dois tinham feito o percurso todo em silncio, desde que saram da 
igreja, o visconde sempre sisudo. Quando chegaram em casa, assim que o 
cocheiro surgiu, Valient entregou a ele as rdeas, desceu e foi seguindo 
na frente sem dar atenes a Jemima. Ela o seguiu, calada. Sem dizer uma 
palavra aos empregados que o receberam, o visconde foi para a biblioteca 
e sentou-se diante de uma enorme escrivaninha.
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Jemima ficou parada na porta, sem jeito, vendo-o retirar de uma caixa de
couro, uma folha de papel timbrado que colocou sobre a mesa. Quando ele
pegou a pena para comear a escrever, Jemima falou com timidex
- Bem... o que voc quer que eu faa?
- Espere um pouco! - retrucou o visconde, irritado. - Quero que levem 
logo esta participao de casamento para que d tempo de sair no jornal de
amanh cedo.
-  claro... desculpe.
Jemima entrou em silncio e sentou-se em uma poltrona. Enquanto esperava,
ficou examinando o ambiente. Percebeu que, embora o lugar fosse 
luxuosamente decorado, os mveis j estavam bem gastos e precisando de 
uma bela limpeza. Depois, recriminou-se por estar criticando em vez de 
agradecer o estranho destino que fizera com que ela encontrasse pelo 
menos um teto onde se abrigar.
Tudo acontecera to rpido que ela nem tivera tempo de refletir sobre o 
que estava fazendo, ao se casar com o visconde. A nica coisa em que 
pensara fora no fato de no ter de voltar  casa do tio e ainda apanhar 
por ter fugido.
Ela o odiava tanto que s de lembrar daquele rosto autoritrio, 
estremecia. A surra que ele tinha lhe dado na ltima manh, como em 
tantas outras vezes, no s machucara seu corpo como principalmente a 
humilhara e ferira seu orgulho. Ela nunca imaginara que no mundo pudesse 
haver pessoas to cruis, egostas e insensveis como sir Aylmer e a 
filha.
Sabia que Niobe no gostava dela porque, apesar de ser pequena e 
insignificante, era uma mulher e portanto a prima a considerava uma 
rival.
Fizera com que o pai batesse nela, logo no incio, com medo que ele 
comeasse a gostar da prima. Teve cimes do afeto do pai. Se ele gostasse 
de Jemima, Niobe iria se sentir lesada.
Niobe era possessiva e egocntrica, achava que o mundo devia girar em 
torno dela.
Bastava Jemima se arrumar um pouco melhor e ficar um pouquinho atraente 
que fosse, Niobe brigava com ela, beliscava-a e obrigava-a a mudar de 
roupa. Se ela se negasse, Niobe ia fazer intrigas para o pai e ele 
acabava batendo na sobrinha.
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Alm disso, usava Jemima como se fosse sua empregada, alis, a palavra 
mais certa seria escrava, pois a prima trabalhava para ela de graa e 
ainda recebia maus-tratos e ouvia desaforos. s vezes, no fim do dia, 
depois de subir e descer centenas de vezes aquelas escadas, ser 
maltratada e humilhada, ela se sentia to cansada e infeliz que nem 
conseguia dormir. Ficava chorando, sozinha, no escuro.
O contraste entre a vida que levava na suntuosa manso do tio e a que 
levara na modesta casa de seus pais era to grande que ela se sentia como 
se tivesse sido expulsa do paraso e cado no inferno.
Houve vezes em que ela chegou a pensar em suicidar-se afogando-se no lago 
ou com um tiro de uma das pistolas de duelo que o tio possua. Mas o 
orgulho a mantinha firme e cheia de coragem, e ela repetia para si 
prpria que no ia se deixar vencer por pessoas que ela odiava e 
desprezava tanto.
Tudo na casa do tio era o oposto da bondade, carinho e compreenso que 
sempre recebera da me. Sabia que seu pai jamais gostara de sir Aylmer e 
dava graas a Deus por ele ignor-los por serem parentes pobres e no 
terem posio social de destaque.
Aquela manh Jemima chegara ao limite do que podia suportar.
Tinha apanhado porque Niobe, embora no admitisse, estava nervosa por ter 
que dizer ao visconde que no ia mais se casar com ele, e o tio estava 
nervoso com o acordo de casamento que estava em andamento com o marqus 
de Porthcawl. Jemima, como sempre, era o bode expiatrio de tudo e tivera 
o azar de, justo naquele dia, esbarrar sem querer numa mesinha e derrubar 
uma estatueta de porcelana.
Ela no costumava ser desastrada, mas  que um dos cachorros de sir
Aylmer entrara correndo para fazer festa e dera um encontro nela
fazendo-a perder o equilbrio e virar a mesinha.
Sir Aylmer, que acabara de chegar, ainda estava com o chicote de montaria 
na mo e imediatamente avanou para ela. Quando, afinal, conseguiu correr 
para o quarto, dolorida e magoada, resolveu que precisava fugir. No 
havia outro meio de se proteger daquelas surras e no queria mais se 
sujeitar aqueles maus-tratos.
Sabia que o visconde iria visitar Niobe depois do almoo e quando desceu 
para fazer uma das muitas tarefas de que era encarregada, viu a
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carruagem dele parada no jardim. Viu que ele tinha vindo sozinho, sem 
cocheiro, e imediatamente armou um plano de fuga.
Sabia que no tinha tempo para pensar muito, era preciso agir rpido. 
Conseguiu passar pelo saguo sem ser vista, pegou uma das mantas de 
carruagem que ficavam no ba e correu para fora sorrateiramente. Entrou 
na carruagem, deitou-se no cho, cobriu-se com a manta e ficou ali 
esperando, o corao palpitando de medo. Agora estava livre, afinal!
Mas enquanto se vestia depressa, depois que a criada dissera que o 
visconde j estava tomando o caf da manh, Jemima ficou pensando se no 
teria apenas mudado de um carrasco para outro. No sabia como era o 
visconde. Ela o vira vrias vezes de longe,  claro, pois no lhe era 
permitido conhecer nenhum amigo de Niobe. Mas gostava de olhar, 
furtivamente, os admiradores que cortejavam a prima. Achava ridculo 
aquilo tudo e observar o espetculo a divertia muito. De todos os 
pretendentes, o visconde tinha sido o que ela achara mais bonito e 
simptico.
S quando a famlia estava sozinha, Jemima comia com eles  mesa, mas 
Niobe e o pai a recriminavam tanto e caoavam dela que preferia mesmo 
comer com os empregados.
Agora, olhando para aquele homem, que to de repente e inesperadamente se 
tornara seu marido, ela imaginava como seria sua vida dali em diante. 
Ser que seria diferente da vida na casa do tio? Ou ali tambm viveria em 
escravido?
Quando o visconde terminou de escrever a participao de casamento, ele 
se ergueu.
- Vou at o clube - disse ele -, de l mando entregar a notcia no 
jornal.  melhor voc ir para a cama.
Jemima tambm se ergueu da poltrona.
- Ser que... - disse ela com voz titubeante -, algum pode me mostrar 
onde  que vou dormir?
- Ah, claro, a governanta pode fazer isso. Ele tocou o sino para cham-
la.
- Ser que eu poderia... se no for incmodo... comer algo antes de 
deitar? - pediu Jemima, timidamente.
- Voc est com fome? - perguntou ele surpreso.
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- Eu no tomei nem caf da manh, hoje. Estou em jejum.
Ela disse apenas isso, sem se preocupar em explicar que ficara sem comer 
por causa da surra e porque ficara chorando at a hora do almoo. Nesse 
momento, a porta se abriu e entrou o mordomo.
- Esta senhora deseja comer e depois diga a sua mulher para mostrar a ela 
onde vai dormir.
- A lady vai dormir aqui? - perguntou ele, com certa impertinncia. 
Estava realmente admirado.
- Esta  minha esposa, Kingston - anunciou o visconde -, e a partir de 
agora a patroa de vocs!
Ele falou e foi saindo da biblioteca, deixando o mordomo boquiaberto e de 
olhos arregalados. Houve um rudo de porta batendo, depois o empregado 
olhou para Jemima e disse, ainda de um certo modo impertinente:
- Ser que entendi bem o que disse milorde? Ele se casou com a senhora?
Jemima olhou para ele de cabea erguida.
- Voc ouviu muito bem o que ele disse - retrucou. - Agora, por favor,
pea para sua mulher me mostrar meus aposentos. Acho que seria melhor
levarem a comida para mim numa bandeja.
- No sei como vai ser - disse o mordomo -, o cozinheiro j foi embora e 
hoje de manh milorde no deu ordens para que se preparasse jantar.
- Bem, no quero ser inconveniente. Se no houver comida, ficarei 
satisfeita com um pouco de po com queijo e um ch.
- No sei quem vai preparar isso para a senhora. O cozinheiro no gosta 
que os outros empregados mexam na cozinha.
Jemima olhou bem para o mordomo e percebeu ento que ele andara bebendo. 
Admirou-se de o visconde admitir um empregado insolente como aquele, mas 
de repente lembrou-se de uma conversa com Niobe que analisava os prs e 
os contras dos seus pretendentes, enquanto a prima a arrumava.
- Eu gosto de Valient Ockley -, disse Niobe, na ocasio. - Ele  bonito e 
ns dois faramos um belo par. Todos dizem isso! S que ele no tem 
dinheiro.
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retrucou Jemima. - Afinal,
- E por que se preocupar com isso? - retrucou Jemima. - Afinal, voc j  
muito rica!
- No pretendo gastar meu dinheiro com homem nenhum, seja quem for. Alm 
disso, papai disse que a casa dele est caindo aos pedaos e vai ser 
preciso gastar uma bela quantia para deix-la em ordem. Ao passo que a 
manso do marqus est em perfeito estado... Alis, papai disse que a 
casa dele  a casa de um nobre de verdade!
- Mas o marqus  velho - disse Jemima -: e eu acho que ele  horroroso!
- Quando voc o viu?
- Eu o vi chegar ontem  noite e quando entrou no saguo pude ver bem a 
cara dele. Tenho certeza de que  um bobalho. No tem cara de homem 
inteligente ou interessante.
- Voc nem o conhece, no sabe nada sobre ele! - disse Niobe, com 
rispidez. - Ele  rico, vivo e  um marqus. J pensou na posio que
vou ter? Eu, a marquesa de Porthcawl!
- Mas ele vai ser seu marido... vai beijar voc... vai dormir na mesma 
cama... j pensou nisso?
- Ora, Jemima, francamente! Como se atreve a falar nessas intimidades?
- Antes de aparecer o marqus voc dizia que amava o visconde...
- E eu o amo mesmo - disse Niobe, com um delicado suspiro. Gosto quando 
ele me beija e me abraa... mas um marqus  muito mais importante do que 
um visconde.
Agora Jemima constatava que no s o visconde era muito pobre como tambm 
muito mal servido em termos de criadagem.
Uma mulher um tanto desleixada, que nem de longe parecia uma governanta, 
conduziu Jemima at um quarto, com muita m vontade, dizendo que era ali 
que devia ficar se era mesmo verdade que tinha se casado com o patro.
- Ns nos casamos hoje mesmo, numa aldeia - retrucou Jemima.
- Ento,  esse mesmo o seu quarto.  pegado ao dele. Ouvi dizer que a 
senhora quer comer alguma coisa.
- Agradeceria muito se me arranjasse algo. Estou com muita fome.
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Afinal, foi-lhe servido um prato com um pedao de carneiro e trs 
batatas, tudo frio, po e manteiga numa vasilha mal lavada. Mas Jemima 
no estava em condies de reparar nessas coisas. Comeu at matar a fome, 
depois, como ningum foi buscar a bandeja vazia, ela colocou-a do lado de 
fora do quarto, tirou a roupa e se deitou.
Apesar do cansao, no pde deixar de notar que os lenis estavam 
rasgados e encardidos e que havia uma camada de p na gua que estava no 
jarro de loua, junto  bacia, em cima da cmoda.
Deitou-se com cuidado para no machucar mais as costas doloridas, cheias 
de-verges das chicotadas. De qualquer forma, suspirou aliviada. Pelo 
menos ali estava fora do alcance do tio e de Niobe, o resto no tinha a 
menor importncia.
Enquanto descia as escadas para tomar o caf da manh, usando o mesmo 
vestido com que sara da casa do tio, Jemima ficou pensando se o visconde 
no estaria arrependido de ter se casado com ela, num gesto impulsivo.
Achou que devia ter recusado e t-lo impedido de fazer uma coisa to 
absurda, s para se vingar. Mas, ao mesmo tempo, para ela tinha sido 
muito conveniente, a maior felicidade de sua vida, embora ainda no 
soubesse o que esperar daquela situao.
No precisava mais temer a crueldade do tio: agora era a viscondessa 
Ockley, e no importava o que acontecesse no futuro, mesmo que o visconde 
a mandasse embora, que no quisesse mais v-la, pelo menos tinha um nome 
e um ttulo honroso.
Quando o visconde comeara a cortejar Niobe, ela ficara fascinada no 
apenas com ele mas tambm com a linhagem de nobreza a que pertencia.
- Os Ockley so muito importantes - repetira Niobe inmeras vezes. - 
Vrios aristocratas que no aceitariam papai, por ele ser apenas um 
cavaleiro com ttulo adquirido e ter feito fortuna em vez de herd-la, 
jamais fechariam as portas para um Ockley.
Por isso, naquela manh, Jemima sentia-se feliz por ter adquirido o nome 
do visconde, embora se sentisse um pouco nervosa porque no sabia com que 
humor ele estaria.
Desceu as escadas e ficou procurando a sala de jantar pois no havia
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ningum ali para lhe dizer onde era, at que ouviu vozes e caminhou na 
direo de onde vinham.
O visconte estava com dor de cabea, de ressaca, por ter bebido vinho 
demais. Ele detestava quando acontecia isso, pois normalmente no era de 
beber muito. Era bastante cuidadoso com relao a isso. Comia e bebia sem 
exageros, preocupado em manter uma boa sade para ter um bom desempenho 
nos esportes que gostava de praticar.
Entretanto, na vspera, depois de ter mandado levar a notcia de 
casamento para o jornal, ele encontrou vrios amigos no clube e ficou 
bebendo com eles at de madrugada. Resolveu no contar nada a eles para 
que o impacto da notcia no jornal fosse maior no dia seguinte. Sorriu 
com a satisfao ntima de saber que para Niobe, sem dvida, seria uma 
surpresa bem desagradvel.
Quanto mais pensava no modo como ela o iludira, mantendo-o na reserva 
caso o marqus falhasse, com mais raiva ele ficava.
Tinha ficado bebendo no clube, mas no falara, no participara da 
conversa como sempre fazia. Ficara s ouvindo. Todos estranharam e 
perguntaram o que tinha acontecido, por que estava to calado. Como ele 
no respondesse, os amigos se entreolharam, certos de que Niobe havia 
dado o fora nele.
S Freddy, porque era o amigo mais ntimo, resolveu perguntar de novo, 
quando deu a ele uma carona em sua carruagem, na hora de irem embora.
- Sei que voc foi at a casa de campo deles, hoje, Valient - disse.
- Ela recusou seu pedido?
- No quero falar nesse assunto - disse o visconde com voz um pouco 
arrastada. - Amanh eu falo, Freddy. Venha tomar o caf da manh comigo.
- Est bem, pode me esperar. Sinto muito, meu amigo, se aconteceu o que 
eu desconfio... mas, afinal, ela no  a nica herdeira rica no mundo. 
nimo, rapaz!
O visconde, enrolou a lngua, emitiu um som confuso e desceu da carruagem 
sem nem dizer boa noite.
Freddy tocou a carruagem e ficou com pena do amigo. Desconfiava
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que Niobe tinha preferido o marqus e que Valient estava sofrendo por
isso.
O visconde tinha acabado de entrar na sala de jantar e estava examinando 
o que havia na mesa do caf, arrumada com pratarias escurecidas e 
malcuidadas, quando Freddy entrou sem ser anunciado.
- bom dia, meu caro Valient -, foi ele cumprimentando num tom caloroso. - 
Espero que esteja mais bem-disposto hoje.
- Pois eu lhe digo que estou em pssimo estado - retrucou o visconde 
largando a tampa de prata que cobria um dos pratos e olhando para Freddy.
- O que no  de se admirar, considerando-se o que voc bebeu ontem. Deve 
ter bebido pelo menos umas trs garrafas!
O visconde resmungou qualquer coisa e serviu-se de caf. Freddy acomodou-
se numa cadeira e abriu o jornal que tinha trazido.
- Voc j leu as notcias? - perguntou ele. - Os agricultores esto 
protestando veementemente contra a competio no mercado de alimentos 
importados, que so mais baratos. - Virou algumas pginas examinando por 
alto o contedo e de repente exclamou. - Meu Deus!
- Leu de novo a notcia que tanto o surpreendera, depois disse. Ento, 
ela aceitou seu pedido! Mas por que diabos no me disse nada? Por que no 
me contou ontem? S que o jornal publicou errado... aqui esto dizendo 
que vocs j se casaram!
- Leia para mim.
- Puxa, mas como  que foram cometer um erro desses? - comentou Freddy 
admirado. - Oua, est escrito assim: - "Realizou-se ontem secretamente o 
casamento entre o Quinto visconde Ockley, de Ockley Hall, 
Northamptonshire e a srta. Barrington".
- Exatamente, est certo - afirmou o visconde.
Freddy olhou para ele atnito e boquiaberto, mas antes que formulasse a 
pergunta que tinha em mente a porta se abriu e Jemima entrou. Freddy 
virou a cabea e ao v-la ergueu-se imediatamente.
- bom dia, Jemima -, disse Valient. - Quero lhe apresentar meu melhor 
amigo, Frederick Hinlip. Freddy, esta  minha esposa, Jemima Barrington, 
agora viscondessa de Ockley.
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Por instantes, Freddy ficou sem fala por completo. Os olhos de Valient 
brilhavam com cinismo e ele parecia estar se divertindo.
- Desculpe eu ter me atrasado... - disse Jemima - mas  que dormi demais. 
Estava to cansada!
- No tem importncia - disse o visconde. - No precisava ter levantado 
cedo. Sirva-se, por favor. No sei se voc vai achar a comida muito 
apetitosa, em todo caso...
- Claro que vou, eu ainda estou com fome - sorriu Jemima. O visconde 
ficou meio sem jeito.
- Kingston no levou comida para voc, ontem?
- Levou o que ele conseguiu arranjar. Disse que o cozinheiro j havia 
sado.
Freddy, afinal, recuperou a fala.
- Isso  alguma brincadeira? - perguntou ele, sem entender nada.
-  claro que no! - respondeu Valient. - Se voc quer saber a verdade,
vou lhe contar, mas no  para espalhar para todo mundo. Niobe realmente
preferiu o marqus e Jemima, a prima dela, estava louca para fugir das 
garras do tio. Coisa, alis, que no censuro!
Freddy fitava os dois com olhos semicerrados.
- Quer dizer que se casou para se vingar de Niobe?
- Voc entende rpido, Freddy. Foi justamente isso que eu fiz! S queria 
saber os comentrios que esto fazendo l no clube... e quanto tempo vo 
demorar para descobrir que a Barrington com quem me casei no  a que 
esto pensando!
- Sem dvida, voc resolve as coisas de um modo-mui to especial!
- comentou o amigo.
Freddy contemplou Jemima com olhos crticos enquanto ela se aproximava da 
mesa e se sentava. Ela sorriu, meio tmida, e ele concluiu que a moa era 
de certa forma atraente se no fosse comparada com a prima.
- Ento, esto casados, ora vejam s! Preciso cumpriment-los. E agora, o 
que pretendem fazer?
- Como assim? - perguntou o visconde. - Voc acha que devemos fazer algo?
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Estava s imaginando... Por que no tive o prazer de conhec-la
antes, milady?
- Eu no tinha permisso de ser apresentada aos convidados de meu tio, 
nem de frequentar as festas para as quais ele e a filha eram convidados - 
respondeu Jemima. -  que sou apenas uma parenta pobre.
- Parenta pobre? - repetiu Freddy, incrdulo.
- Muito pobre - confirmou ela. - Minha fortuna resume-se em dois guinus.
De novo Freddy olhou atnito para o visconde.
- Pois , no  para contar a ningum - disse o visconde - mas Jemima 
estava fugindo para Londres, s com esse dinheiro e sem ter onde ficar 
nem a quem recorrer.
- Meu Deus! Ento voc foi a salvao para ela - disse Freddy -, embora 
tambm tivesse tido seus motivos para se casar assim to 
precipitadamente!
- E eu sou muito grata a ele por isso. - Fitou o visconde sentado  sua 
frente e quando seus olhares se encontraram ela teve a impresso de que 
era a primeira vez que ele olhava para ela. - S que estava com medo de 
que hoje j estivesse arrependido de sua benevolncia...
Freddy percebeu o olhar e falou apressado.
- Bem, creio que vocs desejam ficar a ss e voc, Valient, naturalmente 
no vai mais comigo  luta de boxe em Hampstead Heath conforme tnhamos 
combinado, no ?
-  claro que vou! - respondeu o visconde de imediato. - Tenho certeza de 
que o sargento Jenkins vai ganhar e pretendo apostar nele!
Freddy olhou de um para outro.
- E a sua esposa?
- Ah, ser que eu no poderia ir tambm? - pediu ela. - Adoraria ver uma 
luta, eu sempre tive vontade!
- Uma lady nunca frequenta esse tipo de lugar - retrucou o visconde.
- Ah, eu esqueci que agora sou uma lady...  difcil me acostumar com a 
ideia.
- , sua primeira apario em pblico deve ser de modo apropriado, milady 
- disse Freddy, depois olhou para o visconde. - Sem dvida
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voc deve estar sabendo que todo mundo vai ficar louco para conhecer sua 
esposa. Imagino que a essa hora os comentrios j devem estar fervilhando 
e quando descobrirem que no foi com Niobe que voc casou vo ficar 
mortos de curiosidade para conhecer sua mulher!
-  claro que vo ficar curiosos e acho isso timo! Niobe vai ficar 
furiosa - disse Valient.
- Isso  verdade - disse Jemima. - Ser que... posso pedir algo?
- Certamente - respondeu o visconde.
-  que... - Jemima corou enquanto falava. - Bem, eu sa do jeito que 
estava... no trouxe nada.
- Nada? - espantou-se Freddy.
- , foi tudo to de repente! Eu desci e vi a carruagem, logo depois da 
surra que levei de tio Aylmer, e achei que era minha chance de escapar... 
no aguentava mais...
- Quer dizer que sir Aylmer costumava bater na senhora, milady? No  
possvel!
- Pode parecer impossvel, mas  verdade -, retrucou Jemima e se virou de 
costas. O vestido que usava tinha sido de Niobe e era um pouco grande 
para ela, alm de ter um pequeno decote atrs. Por isso, os dois puderam 
ver bem os verges vermelhos, marcando a pele branca e delicada, que 
chegavam quase at o pescoo. Ela se virou de frente de novo.
- Esto vendo? Mais para baixo est pior ainda! Agora sabem que no estou 
mentindo.
- Mas isto  um despropsito! Que coisa absurda! - indignou-se Freddy. - 
Aquele homem  um monstro!
- Eu jamais gostei dele e sempre o considerei um intrometido acrescentou 
o visconde -, mas nunca imaginei que ele fosse to vil a ponto de tratar 
com brutalidade uma delicada jovem!
Olhou para Jemima, enquanto falava, e achou que ela parecia uma menina, 
pequena e frgil. Por um instante, passou por sua cabea a ideia de que 
poderia ser acusado de raptar uma menor, porm logo se lembrou de que sir 
Aylmer no ia querer fazer alarde do caso para que o mundo social em que 
vivia ficasse sabendo o modo brutal e repulsivo com que tratava uma 
parenta pobre que estava sob sua tutela.
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Estava pensando - disse Freddy, depois de uma longa pausa que assim como 
milady est...
Ora, pelo amor de Deus, Freddy, chame-a de Jemima e trate-a de
voc! - interrompeu o visconde. - Seno, parece que voc est falando de 
minha me!
- Est bem. O que eu quero dizer  que j que Jemima vai ter que comprar 
algumas roupas,  melhor que faa um enxoval digno de uma lady.  preciso 
que fique patente porque entre ela e Niobe voc a preferiu!
Tanto o visconde quanto Jemima entenderam de imediato o que ele estava 
tentando dizer, com muito tato, para no ferir a suscetibilidade da moa.
- Meu Deus! Eu vou mesmo ter roupas novas, lindas, e feitas especialmente 
para mim? Mal posso acreditar! H dois anos que eu s uso os vestidos 
velhos de Niobe, que ela no quer mais, e por mais que eu tente reform-
los nunca ficam bem em mim. Eu sou morena e mame sempre dizia que cor 
pastel no combina comigo!
- Pois compre quantos vestidos quiser - disse o visconde -, e  melhor ir 
 loja de madame Bertha. Eu j estou mesmo devendo uma grande quantia a 
ela!
- Voc tem conta na madame Bertha? - disse Jemima atnita, mas depois de 
alguns instantes caiu na risada. - Ah, mas  claro, como sou boba! Devia 
ser l que voc comprava presentes para as mulheres com quem andava!
- Meu Deus! Isso no so modos de falar! - repreendeu o visconde. Tanto 
ele quanto Freddy estavam to espantados com o jeito dela que
Jemima corou.
- Desculpe... no sabia que era errado...
- Claro que  errado - disse o visconde. - Voc no devia nem saber uma 
coisa dessas, quanto mais mencionar o assunto! No posso Creditar que seu 
tio tenha...
- No foi tio Aylmer que falou nisso, foi um primo, Oliver Barington.
- Que sujeito mais inoportuno! - comentou Freddy. - Alis, eu nunca
suportei Oliver, desde os tempos de escola.
35
- Concordo com voc - disse o visconde -, e quanto a voc, Jemima, 
melhor esquecer as besteiras que seu primo lhe disse.
- Ah, ele no disse dretamente para mim.  que as pessoas sempre acham 
que os criados so surdos e imbecis e falam coisas indiscretas perto 
deles. E parentes pobres esto na mesma categoria de empregados...
Freddy no pde deixar de rir.
- Pois, minha cara, agora voc tem de esquecer essa histria de parente 
pobre. Valient no pode ter uma esposa humilde. Portanto erga a cabea e 
trate de convencer a todos que Valient escolheu a melhor esposa do mundo.
Jemima fitou-o de olhos arregalados e disse com voz tnue:
- Acha mesmo que... que eu consigo...
- Voc tem que conseguir - disse Freddy. - Valient se meteu nessa... - 
ele ia dizer "encrenca", mas trocou a palavra a tempo situao e  muito 
importante que nem Porthcawl nem Niobe riam dele agora!
- Ah, isso no!  claro, eu entendo! - disse Jemima. - Talvez fosse 
melhor... eu desaparecer, ir embora... - Ela suspirou. - Acho que foi um 
erro eu ter concordado em me casar com voc... mas  que, naquela hora, 
me pareceu to maravilhoso que voc pudesse me ajudar num momento de 
desespero to grande...
- Fico contente de ter podido ajud-la - disse o visconde com deter 
minao -, mas Freddy tem razo. Agora temos que enfrentar a situao de 
cabea erguida, no podemos ficar feito cachorros escorraados, com o 
rabo no meio das pernas,
- Assim  que se fala, meu caro! - aprovou Freddy. - Agora est nas mos 
de Jemima.
Freddy a contemplou de onde estava e Jemima sentiu que ele a estava 
analisando, estudando os pontos favorveis.
- Farei o que vocs quiserem e acharem melhor - disse ela -, mas estou 
bem ciente de que no posso me comparar a Niobe.
- Lembro-me de uma vez - disse Freddy -, quando criana, em que perguntei 
a mame se ela gostava mais de mim ou de meu irmo Ela pegou duas flores 
do jardim, uma rosa e um lrio, e depois me disse
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Qual das duas voc acha mais bonita?.
- No sei, mame - respondi eu -, as duas so lindas de forma  diferente.
Cada uma tem sua beleza especial.
Justamente! - disse ela. - No se pode estabelecer comparao
entre elas. As duas so dignas de admirao. E  assim que eu me sinto
tambm com voc e seu irmo Charlie. Vocs so duas pessoas diferentes  e
eu admiro e amo os dois como meus filhos. No existe primeiro e segundo, s
dois garotos que eu adoro.
- Que resposta maravilhosa! - encantou-se Jemima. - Vou  dar bem isso,
caso acontea o mesmo com meus filhos. - Depois, percebendo o que dissera,
ela corou e mudou de assunto. - Vou me esforar para ficar o melhor que
posso! Talvez com vestidos bonitos e o cabelo bem penteado milorde no se
envergonhe de mim...
- No tenho a menor inteno de me envergonhar, ao contrrio,  pretendo me
orgulhar de voc! - disse o visconde num tom de voz que  soou um pouco
forado.
Houve uma pequena pausa, depois Jemima disse:
- Ento... ser que poderia fazer o favor de ir comigo e ajudar-me a
escolher os vestidos certos? Eu no sei se saberei escolher sozinha .O
visconde olhou-a com ar de surpresa e Freddy riu.
- Por que no, Valient? Voc tem bom gosto, como j pde demonstrar  em
vrias ocasies... - disse com malcia.
- Ora, cale-se! Est se mostrando pior do que Oliver BarringtoH'
- No diga isso nem brincando! - retrucou Freddy. - Mas, minhas irrns,
quando querem comprar roupas para ocasies muito especiais  costumam desfilar
com os vestidos para mim, para que eu d palpit e ajude na deciso.
- Pois bem - decidiu o visconde -, ns iremos com Jemima fazer  as compras.
- Mas no podemos sair com ela assim como est agora! - disse Freddy
depressa.
- Por que no? - perguntou o visconde.
- Porque depois de meia hora toda Londres j estar comentando que,
perdoe-me, Jemima, ela no est  altura de ser sua esposa.
Jemima sabia que ele tinha razo. O vestido que usava ainda estava
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todo amassado, por ela ter ficado deitada no cho da carruagem sob a
manta, embora o tivesse dependurado cuidadosamente quando o tirara 
noite. E, alm do mais, estava grande para ela e a cor no combinava nem
um pouco, deixando sua pele plida. Quanto ao cabelo, estava solto e
rebelde, sem um penteado da moda. Nunca tivera tempo ou meios de cuidar
da aparncia e Niobe no gostava de v-la bem-arrumada. Naquele momento
tomou conscincia de como devia estar causando m impresso a lorde
Hinlip e ao prprio visconde. Passou a mo pelos cabelos, um tanto 
constrangida e sem jeito.
- Faremos o seguinte - disse Freddy. - Primeiro mandarei minha carruagem 
a Bond Street para trazer madame Bertha aqui com alguns vestidos para que 
Jemima possa se trocar e depois iremos fazer compras. E, se voc me 
permite, Valient, vou transform-la numa Prima Donna.
Jemima bateu palmas, entusiasmada.
- Isso seria maravilhoso... maravilhoso! - fez uma pausa e depois
acrescentou. - Mas, e a luta de boxe, no vou atrapalhar?
- A luta  s duas horas - disse Freddy - e no vamos demorar tanto assim 
fazendo compras. Temos bastante tempo ainda.
Jemima estava maravilhada. Era a coisa mais emocionante que acontecera em 
sua vida. E mal cabia em si de contente quando, duas horas mais tarde, 
saiu na companhia do visconde e Freddy, toda arrumada com um vestido cor 
de morango e chapu com flores combinando. Entraram os trs na carruagem 
e foram para Bond Street.
No visitaram s a loja de madame Bertha, foram tambm a outras onde 
tanto o visconde quanto Freddy eram bem conhecidos.
Cada vez que Jemima era apresentada como a nova viscondessa, a
proprietria ficava toda sorridente e querendo agradar. Quando, s quinze
para uma, ela voltou para casa, cheia de roupas novas, estava se sentindo
a herona de um conto de fadas. Os trs iam conversando na carruagem.
- Ainda h muitas outras coisas que voc precisa comprar... sombrinhas, 
sapatos, luvas e coisas assim, mas isso voc pode comprar hoje  tarde 
mesmo, enquanto vamos assistir a luta. S que no deve sair sozinha - 
disse Freddy.
- E quem vou levar comigo?
- Uma de suas criadas pode acompanh-la, no , Valient?
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Posso levar a criada que foi me acordar hoje de manh? - pediu
Jemima. - Ela me pareceu simptica.
, pode sim - respondeu o visconde com um tom de desinteresse.
Obrigada... muito obrigada por dizer que eu posso comprar o
que quiser. E mil vezes obrigada por todas essas coisas maravilhosas que 
acaba de me dar! Nunca pensei... nunca sonhei que um dia pudesse ter 
vestidos to lindos!
- Tenho certeza de que vai ficar muito bem com eles - disse o visconde no 
mesmo tom de voz que usara antes.
Freddy percebeu um certo desapontamento no olhar dela.
- Sabe o que acho que devemos fazer? - disse ele depressa. Acho que 
devemos comemorar depois da luta. Valient, voc deve convidar os amigos 
para jantarem com vocs hoje. Tenho certeza de que todos ficaro 
encantados de conhecer Jemima!
- Est bem - concordou o visconde. Depois, virou-se para a esposa.
- Diga a Kingston para avisar o cozinheiro que eu quero que providencie 
jantar para umas dez pessoas.
- Eu direi. - respondeu ela, sentindo-se importante.
Quando pararam diante da casa, Freddy ajudou-a a descer da carruagem.
- Ponha seu melhor vestido, Jemima - disse ele, baixinho -, no se 
esquea que precisa impressionar bem os amigos de Valient.  muito 
importante!
- Eu no esquecerei.
Freddy apertou de leve a mo dela e subiu de novo na carruagem. Enquanto 
se afastavam, ele virou-se e viu-a ainda parada no ltimo degrau. Parecia 
to frgil e desamparada! Acenou e ela respondeu.
- Sabe de uma coisa, meu caro Valient - disse ele virando-se para
O amigo. - Voc  mesmo um homem de sorte!
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CAPTULO III

Assim que a carruagem desapareceu, virando a esquina, Jemima entrou e um
dos empregados veio correndo at a porta.
Era Hawkins, um homem baixo, magro, que tinha sido ordenana de Valient 
enquanto ele estava no exrcito e voltara  vida civil junto com ele,
servindo-o como empregado, conforme a governanta tinha lhe contado na
vspera.
- Milorde j foi embora? - perguntou ele, ainda ofegante.
- Foi - respondeu Jemima. - Ele e lorde Hinlip foram assistir a luta em 
Wimbledon Common.
Hawkins resmungou algo ininteligvel e Jemima perguntou:
- Por que, aconteceu algo errado?
- , milady, aconteceu sim... no sei o que fazer.
- Talvez eu possa resolver ou ajudar. Diga o que . Hawkins ficou um 
tanto embaraado antes de responder.
- Bem, milady,  que os empregados esto indo embora.
- Indo embora? Mas por qu?
Houve um silncio, depois o criado disse, constrangido.
- Eles no gostaram de milorde ter se casado... Jemima olhou-o, 
consternada.
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- Mas eu no pretendo criar problemas!
Ao mesmo tempo, pensou na poeira acumulada na casa, nos lenis 
encardidos, na refeio fria que tinham lhe servido na vspera, nos maus
modos e concluiu que os Kingston no seriam uma grande perda. Entretanto,
como no sabia qual seria a reao do visconde, disse
apenas:
- Vou falar com eles. Tenho certeza de que quando eu disser que
no pretendo interferir na rotina da casa, eles resolvero ficar. Ser 
que pode me mostrar onde fica a cozinha?
- Certamente, milady.
Sem que houvesse explicao para isso, ela teve a impresso de que 
Hawkins pensava o mesmo que ela a respeito dos Kingston.
Atravessaram um corredor e desceram uma escada que, sem a menor dvida, 
estavam precisando de uma bela limpeza. No andar de baixo, o cho 
ladrilhado estava imundo.
Ao passarem pela despensa, Jemima viu um objeto de prata saindo para fora 
de uma maleta de couro que estava no cho. Parou na porta e Kingston 
surgiu de trs de um armrio com um candelabro de prata na mo.
Jemima entrou na despensa.
- Parece que voc e sua mulher esto abandonando a casa de lorde Ockley, 
no  isso? - disse ela num tom de voz que soou corajoso.
Percebeu que Kingston surpreendeu-se ao v-la e imediatamente recolocou o 
candelabro no armrio, antes de responder, em tom grosseiro. - Fomos 
contratados para trabalhar para um homem solteiro.
- Posso entender o descontentamento de vocs - retrucou Jemima - mas
naturalmente  de se esperar que peam demisso com certa antecedncia.
No podem sair assim de repente.
- Ns vamos j! - disse Kingston, com petulncia e ar de pouco caso. -
queremos receber os salrios a que temos direito.
Jemima olhou para a maleta preta e viu que o objeto de prata que estava 
saindo para fora era o p de um candelabro, par daquele outro que ele
tinha tirado do armrio.
- Creio que voc ia levar este candelabro que est ali na maleta para
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consertar, mas j que vai embora, pode deixar que eu providencio isso.
Quer fazer o favor de guard-lo de novo no armrio?
Houve um silncio pesado e por instantes ela temeu que Kingston fosse 
desafiar sua ordem, mas ento Hawkins, que ficara parado na porta entrou
e ele mudou de atitude.
-  verdade, milady, eu ia levar os candelabros para consertar  - ele
respondeu. - Eu no disse? Tinha certeza de que a senhora ia comear a
interferir e ficar criticando o servio, por isso no vou mais ficar para
ouvir reclamaes.
- Dobre a lngua - repreendeu-o Hawkins com rispidez -, e trate milady 
com respeito! Isso no  modo de falar!
Kingston sabia que no estava com a razo e entregou os pontos. Retirou o 
candelabro da maleta e Jemima viu que l dentro havia vrios outros 
objetos de prata. Ela no disse nada, apenas ficou olhando at que a 
maleta ficasse totalmente vazia. Ento, Hawkins adiantou-se, trancou a 
porta do armrio e entregou a chave a ela.
- Obrigada, Hawkins.
Jemima sabia que ela o estava agradecendo no apenas por lhe entregar a 
chave mas sim pelo apoio que dera a ela. Assim que saiu da despensa, ela 
o ouviu dizer:
- O quanto antes sair daqui, melhor, seno vou dar parte de voc 
polcia!
Kingston respondeu com um palavro que Jemima fingiu no ter escutado
enquanto ia para a cozinha. Hawkins apressou o passo e alcanou-a na
porta.
A sra. Kingston estava l, toda arrumada, pronta para sair e em cima da 
mesa havia uma poro de pacotes ao lado de uns restos de comida. Ela 
olhou com animosidade para Jemima e j ia dizer algo rude quando Hawkins 
impediu-a, dizendo:
- Voc no vai embora enquanto no abrir todos esses pacotes e mostrar
a milady o que tem dentro! Acabamos de surpreender seu mari do com os
candelabros de prata na maleta. - A sra. Kingston ficou sem fala e
Hawkins continuou: - Voc sabe to bem quanto eu qual  pena para quem 
rouba seja l o que for!
A governanta deu um grito, pegou uma cesta que devia conter
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roupas dela, passou correndo por Hawkins e saiu antes que ele pudesse
dizer qualquer outra coisa.
Ouviram-na chamar o marido, l fora, em seguida o rudo do porto dos 
fundos batendo e depois o silncio.
- , Bem, eles se foram! - disse Hawkins. - E se quer saber minha opinio, 
milady, acho que j foram tarde. Eles no prestam.
- Eu tambm achei isso - retrucou Jemima. - S no queria ter de 
aborrecer meu marido.
- Os Kingston beberam o vinho dele e dividiram entre os trs a metade do 
dinheiro que milorde deixou para o cozinheiro comprar comida.
- Onde est o cozinheiro, agora?
- Foi embora, h uma hora. Ele estava com medo que a senhora descobrisse 
o que estavam tramando, milady.
- Por que voc no avisou lorde Ockley que eles o estavam atraioando?
Hawkins refletiu por alguns instantes, antes de responder.
- Por que estou acostumado assim, milady. No exrcito,  cada um por si. 
Viver e deixar viver. Se milorde tivesse perguntado, eu teria lhe contado 
a verdade, mas como no falou nada achei que no devia criar problemas.
- Acho que posso entender sua posio - disse Jemima. - Agora, que tal 
vermos o que eles iam levar embora?
Abriram os pacotes sobre a mesa e descobriram que continham vrios 
pequenos objetos recolhidos da casa, alguns dos quais bastante valiosos, 
outros meras bugigangas, mas Jemima ficou contente que tudo tivesse sido 
salvo das mos dos ladres.
S quando estavam colocando os objetos numa bandeja para recoloclos nos 
lugares certos,  que Jemima lembrou-se do recado do visconde.
- E, agora, o que vamos fazer, Hawkins? - disse ela aflita. Lorde Ockley 
disse que teremos, no mnimo, uns dez convidados para Jantar hoje!
- Duvido que consigamos arranjar outros empregados to depressa assim, 
milady...
- Pois, ento, j sei o que vamos fazer!
43
- f
O visconde voltou da luta com um bom humor extraordinrio. Tinha se
divertido a valer, no apenas observando a luta, cujo vencedor foi o
sargento em quem apostou e que arrasou o adversrio em vinte e seisf 
rounds, mas tambm recebendo com cinismo os cumprimentos de seus amigos
e conhecidos que ficaram sabendo do casamento. 
No pde deixar de pensar que todos eles estavam sendo to efusivos I e 
amveis s por saberem da grande fortuna de Niobe.
A atitude dos amigos, em geral, era de quem o considerava extremamente
inteligente e hbil por ser bem-sucedido num golpe invejvel. Enquanto
que o visconde estava to eufrico de no ter sido humilhado: quanto um 
garotinho que consegue roubar uma ma de um pomar sem ser pego.
Voltaram, como sempre, na carruagem de Freddy com o visconde se gurando 
as rdeas. Freddy sabia que o amigo manejava os cavalos e bera melhor do
que ele e por isso preferia deix-lo conduzir.
- Por quanto tempo vai continuar com essa farsa? - perguntou Freddy,
assim que ficaram a ss.
- At que eles descubram a verdade.
- Vo ficar furiosos quando perceberem que voc os fez de tolos!
- No podero dizer nada. Afinal, eu casei com uma Barrington, no menti 
quando publiquei a notcia, nem disse a eles que tinha me casado com 
Niobe. Ah! S gostaria de ser uma mosca para poder escutar o que ela e o 
pai esto dizendo disso tudo!
- Meu caro amigo, voc est se tornando um sdico!
- Ora, ela jogou sujo comigo e merece o mesmo em troca - disse o visconde 
com displicncia.
- , quanto a isso, concordo com voc, mas ao mesmo tempo no posso 
deixar de achar que voc est patinando em gelo fino, Valient.
O visconde ficou em silncio por alguns instantes.
- Veremos o que acontece esta noite - disse ele, depois. - Voc viu quem 
eu convidei para jantar?
- , confesso que fiquei surpreso com sua escolha.
- Alvanley  o maior tagarela e espalha-boatos de Londres e se ele 
aprovar Jemima os outros seguiro a atitude dele. Chesham  um grande 
admirador da beleza feminina e no resiste a um rosto bonito...
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Freddy no disse nada e depois de uma pausa o visconde acrescentou: sei o
que est pensando, mas acontece que ele no gosta de Niobe.
Por qu?
Ela o desprezou antes de saber quo importante ele era. Depois
que descobriu e tentou reconquist-lo ele no quis mais saber, no se  
deixou levar.
- Isso  bem prprio dela! Se quer saber minha opinio, Valient, quanto 
mais ouo falar de Niobe e do pai, mais me conveno de que voc deveria 
agradecer o fato de ter se livrado deles e no procurar se vingar!
- Ns vemos as coisas de modo diferente - disse ele, apenas, encerrando o 
assunto.
O visconde acabou chegando tarde em casa porque no resistiu  tentao 
de parar um pouco no clube White s para ouvir o que tinham a dizer sobre 
seu casamento.
Algumas pessoas ele j havia encontrado durante a luta, mas muitos tinham 
passado a tarde ali nas confortveis poltronas do clube comentando sobre 
acontecimentos da sociedade e era a opinio desses que ele queria ouvir.
S quando Freddy percebeu que j era tarde e o chamou para ir embora  
que o visconde saiu e dirigiu a carruagem a toda velocidade para Berkeley 
Square.
- S espero que o cozinheiro tenha feito um bom servio, pelo menos dessa 
vez! - disse ele puxando as rdeas e fazendo os cavalos pararem diante da 
casa.
- Voc devia ter esperado at que Jemima se acostumasse a ser uma dona-
de-casa. Ela mal acabou de chegar! - comentou Freddy.
- Jemima? Ora, duvido que ela saiba como dirigir uma casa! E, dePois, 
agora  tarde demais.
Os dois se olharam apreensivos.
-  melhor servir bastante vinho. Isso sempre esconde possveis falhas.
O visconde desceu da carruagem, subiu correndo os degraus de entrada e 
quem o recebeu foi Hawkins e no Kingston.
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- Est bem, Hawkins - disse ele -, sei que estou atrasado mas espero que 
tenha providenciado tudo para mim.
Sem esperar resposta ele subiu a escada, de dois em dois degraus e 
encontrou, tal como esperava, seu banho preparado e suas roupas limpas 
estendidas sobre a cama.
Ainda estava to alvoroado com os cumprimentos e imaginando o que os
convidados iam achar de Jemima que no reparou em mais nada. Tomou banho e
arrumou-se depressa e quando desceu as escadas, impecavelmente vestido,
viu lorde Alvanley, lorde Worcester e sir Stafford Lumley entrando no
saguo.
Cumprimentou-os com grande efuso e conduziu-os at a sala descobrindo, 
surpreso, que Freddy j estava l. Ele tinha ido at a casa dele, trocado 
de roupa, voltado, e ainda chegara antes do visconde.
No havia o menor sinal de Jemima e quando chegaram mais quatro 
convidados ele j estava pensando em mandar cham-la, quando seu criado 
se aproximou e disse em voz baixa:
- Mtlady manda pedir desculpas, milorde, mas diz que est atrasada e no 
pode vir j. Pediu que o senhor comeasse o jantar sem ela.
O visconde franziu a testa, mas sabia que era incorreto demonstrar 
aborrecimento em pblico, por isso disse apenas:
- Diga  lady que venha o mais rpido possvel! - E voltou-se para os 
convidados.
Tudo estava em ordem e bem arrumado, as bebidas providenciadas com 
capricho e exatamente na hora marcada o jantar foi anunciado.
O visconde desculpou-se pela ausncia da esposa e conduziu as visitas
para a sala de jantar.
Assim que foi servido o prato de entrada o visconde percebeu de repente 
que quem estava servindo  mesa era seu criado de quarto e uma jovem que 
era arrumadeira da casa.
J ia perguntar o que acontecera a Kingston quando se lembrou que no 
seria de bom-tom, naquele momento. e como o jantar transcorria perfeito, 
sem a menor falha, ele no se preocupou mais com isso.
Percebeu, satisfeito, que a comida estava melhor do que nunca. Jamais 
provara coisas to deliciosas e at Alvanley, que era um conhecido
gourmet, fizera elogios a pelo menos dois dos pratos.
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fjawkins mantinha todas as taas cheias de vinho, com presteza e ateno,
,
havia um clima de jovialidade e bom humor e a conversa estava mais
animada que de costume.
A nica coisa que aborrecia o visconde era aquela cadeira vazia na outra 
cabeceira da mesa. No conseguia imaginar por que Jemima estava demorando 
tanto. Pensou que talvez os vestidos novos no tivessem sido entregues ou 
que talvez ela tivesse tido um sbito ataque de timidez, o que era mais 
improvvel.
Finalmente, quando serviram pssegos, uvas moscatel e castanhas como 
sobremesa, a porta se abriu e Jemima entrou na sala. O visconde a viu
primeiro, e se ergueu de imediato. Os convidados olharam para a porta
e ao v-la levantaram-se tambm. Ele no pde deixar de sentir uma
satisfao ntima ao constatar que ela estava linda
e extremamente atraente.
O vestido cor de carmim, ornamentado com tule e babados nos ombros e na
barra, realavam a pele alva e acetinada. Os cabelos negros bem penteados,
de acordo com a ltima moda, por um cabeleireiro que Hawkins trouxera 
tarde, estavam brilhantes e com reflexos azulados e deixavam  mostra o
rosto delicado onde brilhavam os enormes olhos escuros.
Ela se aproximou da mesa e quando o visconde percebeu os olhares de 
interrogao das visitas, disse:
- Permita que lhe apresente meus amigos. Cavalheiros... minha esposa!
Foi com grande satisfao que ele ouviu um ligeiro murmrio antes que 
Jemima inclinasse a cabea num gesto de cortesia e se sentasse  
cabeceira da mesa, na cadeira que Hawkins puxou para ela.
- Peo que me desculpem o atraso - disse ela, com voz suave e Musical,
quebrando o silncio que se seguira  apresentao.
- Estava preocupado com a demora - retrucou o visconde. Creio que voc 
perdeu um excelente jantar. Fao questo de elogiar Pessoalmente o 
cozinheiro amanh cedo.
Um brilho de malcia passou pelos olhos de Jemima, mas ele no entendeu.
- Espero que faa isso mesmo, milorde.
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Lorde Alvanley foi o primeiro que teve a coragem de formular a pergunta 
que estava formigando na lngua de todos.
- Deve ter havido um erro de imprensa na Gazette dessa manh Ockley - 
disse ele -, pois do jeito que saiu a notcia entendi que voc havia se 
casado com a senhorita Barrington.
- A notcia estava certa - retrucou o visconde laconicamente - acontece
apenas que minha esposa  sobrinha de sr Aylmer e no filha dele.
Todos os presentes ficaram atnitos, com exceo de Freddy,  claro, e 
vrias exclamaes foram ouvidas. O visconde no pde deixar de achar 
graa na maneira como todos se portavam para se adaptarem  novidade
- Pois quero ser o primeiro a ter o privilgio - disse, afinal, lorde 
Chesham que estava sentado  direita de Jemima - de brindar  sade da 
noiva e desejar a ela felicidades. E,  claro, cumprimentar Ockley pela 
escolha.
No havia dvidas de que ele falava com sinceridade e Jemima olhou para 
ele com um sorriso que, como sempre, formava covinhas em suas faces. 
Estava mesmo to bonita e encantadora que todos os brindes feitos e todos 
os elogios ditos foram sinceros.
Lorde Worcester, que estava sentado perto do visconde, expressou o que 
todos deviam estar pensando.
- Voc, meu caro Valient - disse ele -, est sempre surpreendendo mesmo 
seus amigos mais ntimos! Hoje, sem dvida, voc nos nocauteou a todos, 
tal como o sargento Jenkins na luta.
O visconde sorriu complacente e o lorde disse em voz baixa, s para ele 
escutar.
- E o que houve com Niobe? Eu estava certo de que voc e ela estavam 
apaixonados.
- Meu caro, sempre achei mais prudente esconder minhas cartas num jogo - 
retrucou o visconde sem responder.
- E neste jogo escondeu bem mesmo! Mas eu no o censuro por isso. Se os 
outros a tivessem visto antes, estou certo de que voc teria de vencer 
vrios rivais para conquist-la. Ela  fascinante!
E essa foi a palavra mais usada pelos convidados, quando mais tarde, 
depois de sarem da casa do visconde, queriam descrever Jemima.
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Todos, cada um por sua vez, fizeram elogios sinceros quando se despediram
dela e muitos tentaram em vo faz-la explicar por que no havia
aparecido na sociedade at ento.
Era bvio que todos os cavalheiros ali presentes acharam que havia algum 
mistrio ou talvez at certa esperteza por parte do visconde por hav-la 
mantido escondida e s aparecer j como esposa dele. Estavam todos 
admirados por terem descoberto a existncia dela s naquele momento.
- No posso imaginar por que nunca a encontrei na casa de seu tio - 
diziam todos eles, mais ou menos do mesmo jeito. - Ou ser que no morava 
l com ele,  isso?
- Quando meus pais eram vivos eu morava em Kent com eles -, respondia ela 
de modo evasivo.
Conseguia se esquivar de todas as perguntas sem mentir e evitando uma 
resposta direta de tal modo que quando as visitas se retiraram sabiam to 
pouco sobre ela como quando chegaram.
A nica coisa que conseguiram saber era que o visconde tinha se casado e 
que a noiva no era quem estavam imaginando, mas sim uma jovem mida e 
delicada, amvel, encantadora e fascinante que ouvia com ateno tudo o 
que lhe diziam e corava graciosamente a cada elogio que ouvia
Muitos dos cavalheiros ali presentes tinham sido tratados com arrogncia
e desdm por Niobe que, se deixara estragar pelo sucesso de sua beleza.
Antes mesmo da festa terminar, tanto o visconde quando Freddy tinham
certeza de que os comentrios sobre a "esposa de Ockley" seriam os mais
favorveis.
Quando todos se foram, e s Freddy ficou, o visconde disse a Jemima:
- Por que diabos, afinal, demorou tanto para aparecer e no jantou
conosco? Pensei que tivesse tido um ataque de nervos ou qualquer coisa
assim.
Ele no falava em tom de censura, pois estava com excelente humor devido 
ao sucesso do jantar. Estava at mais eufrico do que  tarde. Jemima 
contemplou-o por instantes, depois disse:
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- Aposto um guinu como voc no adivinha o motivo. O visconde refletiu 
por um momento.
- Creio que, como todas as mulheres, voc demorou demais para se arrumar 
ou o cabeleireiro se atrasou. Lembra-se, Freddy, daquela bailarina que 
nunca cheg... - ele interrompeu bruscamente, lem brando-se que Jemima era
uma senhora. - Pois bem, diga qual foi o motivo.
- Voc perdeu a aposta - disse Jemima e estendeu a mo aberta para ele. -
Pode me pagar!
- Ei, espere um pouco! Primeiro quero saber o motivo.
- Bem, na verdade, foi por causa do jantar que me atrasei.
- O jantar? Como assim? Voc preferiu jantar sozinha? E por falar 
nisso... o que houve com Kingston? Por que Hawkins  que estava servindo 
 mesa?
-  justamente isso o que eu ia explicar. - Jemima fez uma pausa
- Sinto muito mas os Kingston foram embora.
- Embora?
- . Hawkins e eu ainda conseguimos impedi-los de levar uns objetos de 
prata que estavam roubando - acrescentou ela depressa antes que ele 
dissesse algo.
- No  possvel uma coisa dessas! Sabia que Kingston bebia mas sempre 
pensei que fosse honesto! - admirou-se o visconde.
- Pode perguntar a Hawkins, se quiser. E eles foram embora porque acharam 
que no iam poder continuar roubando agora que voc casou e tem uma 
esposa para tomar conta da casa.
Os olhos do visconde se anuviaram ameaadoramente e Freddy se apressou em 
dizer:
- Sempre achei Kingston um imprestvel e muito insolente, E bebia demais
mesmo, alis, da sua adega, meu caro. Tenho certeza de que Jemima ir
encontrar criados bem melhores do que esses!
- No gosto que a rotina domstica seja perturbada! - disse o visconde 
com petulncia. - Em todo caso, pelo menos o cozinheiro saiu-se bem e 
mostrou grande competncia!
- Muito obrigada - disse Jemima. - Estou pronta para ouvir os elogios que 
voc disse merecer o jantar
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por instantes os dois homens se entreolharam e depois olharam fixo ara
ela como se no acreditassem no que acabavam de ouvir. 
Freddy falou primeiro.
Est nos dizendo que foi voc quem fez o jantar?
. No havia mais ningum para fazer... e devemos agradecer a 
Hawkins tambm. Ele comprou todos os ingredientes necessrios em tempo
recorde. Depois eu fiz a comida e ele serviu. Foi isso.
Houve um silncio total, depois o visconde comeou a rir alto e, como se 
fosse contagioso, Freddy riu tambm e depois Jemima.
- Meu Deus!... Se eles soubessem! - disse o visconde sacudido pelo riso. 
- A noiva que eles pensavam ser a mais rica herdeira, preparando a 
refeio que eles comeram e depois aparecendo linda, com o frescor de 
quem repousou o dia todo! Voc merece um prmio, Jemima! Se eu sou um bom 
jogador, que gosta de surpreender, voc tambm ! Ah, eles engoliram tudo 
direitinho!... Isca, anzol e linha... ha, ha ha ha...
- Como  que voc sabe cozinhar to bem assim? - perguntou Freddy quando 
o riso diminuiu um pouco e ele conseguiu falar.
- Meu pai gostava de comer bem e mame e eu gostvamos de agrad-lo 
porque o amvamos. Por isso, tnhamos vrios livros de receitas e 
vivamos preparando coisas diferentes.
- Cus! A comida de hoje foi a melhor que j provei em toda a vida! - 
exclamou Freddy.
- Mal posso crer! - disse o visconde. - Pena que no possamos contar aos 
outros porque ficaria mal para Jemima.
- Voc quer dizer que no ficaria bem para a esposa do visconde Ockley - 
corrigiu Jemima. - Agora sei que poderia ter arranjado emPrego de 
cozinheira se voc no tivesse feito de mim uma lady.
- Alis, acho que as duas coisas so perfeitamente compatveis disse o 
visconde. - com voc cozinhando desse jeito para que vou Querer contratar 
um cozinheiro?
- No momento, o que precisamos  de algum para arrumar a cozinha - disse 
Jemima. - Hawkins levou a loua l para baixo, mas ainda  preciso lavar 
tudo aquilo.
Freddy riu de novo.
51
- Creio que amanh, em vez de ir s lojas fazer compras para o seu enxoval,
voc vai a uma agncia de empregados domsticos.
-  justamente o que pretendo fazer. S h uma dificuldade.
- E qual ? - perguntou o visconde.
-  que Hawkins me disse que uma das razes do descontentar de todos
criados, alm da minha chegada,  o fato de no estarem recebendo
salrios h algum tempo.
O visconde ficou embaraado.
- Confesso que tenho sido um tanto descuidado em relao a isso mas a
verdade  que meus bolsos esto vazios.
- Mas vamos ter que dar um jeito nisso, no ? - disse ela.
- Concordo plenamente, s que no momento no sei o que poderemos fazer
para sair dessa situao.
Ento os trs se lembraram que ele tinha pensado em resolver as 
dificuldades financeiras casando-se com Niobe. Freddy ergueu-se de 
sbito.
- Bem, eu vou indo. Est na hora de eu me deitar. Foi uma noite
maravilhosa, Jemima, graas a voc! E, Valient, meu caro, pode estar
certo de que voc riu por ltimo e se vingou de todos, principalmente de
quem mais merecia!
O visconde acompanhou-o at a porta e quando voltou para a sala Jemima 
ergueu-se da poltrona onde estava.
- Bem, creio que est na hora de dizer boa noite. Foi tudo muito 
engraado e excitante mas tambm me cansei bastante. - disse Jemima.
- Quero agradec-la pelo magnfico desempenho desta noite.
- No  preciso. E, depois, se vamos comear a trocar agradecimentos, eu 
nem sei por onde comear de to grata que estou a voc.
Ela tocou de leve o vestido novo como se mal pudesse acreditar que o
estivesse usando.
- Voc est to diferente da meninnha esfarrapada que se escondeu sob 
uma manta, na minha carruagem! - sorriu o visconde.
- Espero que no tenha desperdiado seu dinheiro comigo, milorde. O
visconde ergueu o clice de licor que estava pela metade, fazendo
um brinde a ela.
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- A noite hoje foi um sucesso, Jemima... foi sua consagrao definitiva!
Ela se afastou com graa.
Boa noite, milorde. Estou feliz por compartilhar da sua vingana,
ou melhor, do seu triunfo. O caf da manh s ser servido depois das
nove horas. Hawkins vai ter de sair cedo para comprar ovos. Ns hoje
comemos tudo o que havia na casa!
Antes que o visconde pudesse dizer qualquer coisa, ouviu os passos dela
se afastando no saguo em direo  escada.
- Um triunfo! - repetiu ele para si e bebeu o resto do licor, satisfeito.
Mas, l no fundo da conscincia, uma voz desagradvel lembrou-o de que
havia um futuro para se preocupar e que, alm, de tudo, agora ainda tinha
que manter uma esposa. com que dinheiro?
Jemima e Emily voltavam para casa depois de uma visita infrutfera 
agncia de empregados domsticos. Ela ia pensando se Hawkins tinha ou no
providenciado as coisas que ela queria para o almoo. Ele passara um
tempo enorme lavando a loua, limpando a cozinha e a copa. Jemima sabia
que era uma concesso da parte dele pois no era esse seu servio, mas
ele estava sempre disposto a fazer qualquer coisa em benefcio do
visconde.
Jemima refletiu que era fcil julgar o carter das pessoas,
principalmente dos homens, a partir da lealdade que inspiravam a seus
empregados.
Na casa de seu tio, todos os empregados dele o odiavam e detestavam Niobe
pela maneira como ela os tratava e falava com eles. Se algum dos
empregados no a agradasse, ela pedia ao pai que o despedisse, sem
motivo, e no o deixava dar cartas de referncias. Por isso, ficara 
surpresa logo que conhecera os Kingston e no entendia
como o visconde os tinha contratado. Eles no eram em absoluto
O tipo de criados que ela esperava encontrar na casa de um nobre. Mas logo

Emily forneceu a explicao, enquanto conversavam na carruagem de
aluguel, a caminho de casa.
Eu acho, Emily - disse Jemima -, que ns vamos ter dificuldades
53
em encontrar, nesta poca do ano, um casal que sirva. Vi muita
gente do campo passar a temporada em Londres e a procura de empregados 
muito grande.
- Isso  verdade, milady, ainda mais que milorde no pode pagar os preos
altos que esses empregados treinados pedem...
Jemima olhou para ela de olhos arregalados.
- Quer dizer que o lorde empregou os Kingston porque eles cobravam
barato? - Emily ficou embaraada e Jemima insistiu
 - Diga-a verdade, por favor, s vai me ajudar.
- Est bem, milady, eu vou dizer. Assim que cheguei a Londrdres eu fui 
agncia da sra. Dawson para conseguir um emprego de domestica. L me
disseram que havia pedido de trs casas para eu escolher e uma delas era a
do visconde. - Ela fez uma pausa e continuou meio  sem jeito. - Meus pais
vivem na propriedade de campo dos Ockley eu ouvia falar do sucesso do
visconde com as corridas de cavalo desde que era pequena... por isso,
disse  sra. Dawson que era na casa do visconde Ockley que eu queria
trabalhar. Ela me respondeu que fiz uma m escolha porque o visconde
pagava mal e que depois eu no fosse reclamar que ela no tinha avisado.
Eu fiquei admirada, pois pensava que gente com esses ttulos era sempre
rica. Mas logo descobri que a sra. Dawson tinha razo. s vezes, eu recebo
meu pagamento mas s vezes no recebo e mesmo assim  sempre menos do que
eu ganharia em outras casas.
- E apesar disso voc continua com o visconde?
- Bem, ele  sempre to generoso e bonito... achvamos que ele ia sair
logo dessa situao. Todos ns pensvamos isso quando...
Emily parou bruscamente mas Jemima sabia muito bem o que ela ia dizer. E
pela primeira vez pensou que se at os empregados estavam contando com
um casamento vantajoso para resolver a situao financeira do visconde, o
que aconteceria agora?
A carruagem de aluguel chegou a Berkeley Square e Jemima pagou o
cocheiro, com um pouco do dinheiro que pedira ao visconde de manh para
as despesas, e ficou imaginando se haveria mais dinheiro e onde ele
poderia consegui-lo.
Entrou no saguo, tirando o chapu novo e elegante, pensando que
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era melhor tirar aquele vestido chique para preparar o almoo. Nesse
momento, Hawkins aproximou-se dela e ela sentiu que havia algo errado.
O que houve? - perguntou ela.
H um cavalheiro que deseja v-la, milady.  sir Aylmer Barrington!
Jemima ficou petrificada.
Seu primeiro impulso foi fugir, mas logo o orgulho e a coragem voltaram e
ela resolveu enfrent-lo, fossem quais fossem as consequncias.
- Onde est o cavalheiro?
- Na sala, milady.
Jemima olhou-se no espelho do saguo por um instante e ao ajeitar os
cabelos deu-se conta de que estava com os olhos maiores e cheios de medo.
Sentiu um n na garganta e os lbios secos. Era assim que se sentia,
sempre que tinha que enfrentar o tio, porque j sabia que acabaria
levando uma surra de chicote.
Em seguida, recusando-se a ser covarde, respirou fundo, caminhou resoluta 
para a porta da sala e abriu-a.
Sir Aylmer estava em p diante da lareira, sinistro e ameaador como 
sempre parecia aos olhos de Jemima mesmo quando no estava bravo.
Pela expresso do olhar e os lbios apertados ela sabia que ele estava 
furioso.
Sentiu o corao palpitar agitado e comeou a tremer de medo.
- Ah, ento voc est aqui mesmo, Jemima! - disse sir Aylmer, com a voz 
rspida que sempre usava com a sobrinha e que seria uma surpresa para
muitas pessoas da sociedade.
- ... tio Aylmer - disse ela, aproximando-se dele hesitante.
- Voc deve estar pensando que foi muito esperta, no ? Casar, se  que 
se casou mesmo, com um homem que est profundamente apaixonado por Niobe! 
Ora, essa  boa! Pois vou lhe dizer uma coisa, mocinha, no pretendo
deixar que me faam de tolo e j que seu casamento no tem valor legal
vou lev-la de volta comigo e vou castiga-la, por essa atitude leviana,
de um jeito que voc no vai esquecer to cedo! Quero ver se vai ter
coragem de fugir de novo!
Sir Aylmer no estava gritando, falava baixo mas com severidade e energia
o que tornava as palavras ainda mais assustadoras.
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- Sinto muito... tio Aylmer se eu... aborreci o senhor, mas o senhor dizia
tanto que eu era um fardo... um estorvo... que ni pensei que fosse sentir
minha falta.
- No se trata de sentir sua falta!  simplesmente que no vou admitir
que desafiem minha autoridade, nem vou permitir que uma sobrinha minha
se porte como uma vagabunda qualquer, indo deitar-se com o primeiro homem
que encontre! Vamos! V buscar suas coisa j a no ser que queira apanhar aqui mesmo. Voc bem que merece.
- Mas... eu acho, tio Aylmer, que devamos... esperar meu marido, para
saber o que ele acha disso...
A resposta de Jemima enfureceu sir Aylmer a ponto de faz-lo per der o
controle e ele comeou a gritar com a sobrinha.
- Faa o que eu lhe disse! No discuta!
Ele ergueu o brao e se aproximou como se fosse bater nela.
Jemima instintivamente encolheu-se, incapaz de disfarar seu terror.
Nesse momento a porta se abriu e o visconde entrou na sala.
Sir Aylmer baixou o brao e Jemima, num gesto impensado, correu para o 
marido. Teve vontade de se atirar em seus braos e agarrar-se a ele, mas 
refreou o impulso a tempo. Parou bem perto e ele percebeu que ela estava 
tremendo.
- Posso lhe perguntar, sir Aylmer - disse o visconde em tom sarcstico -, 
por que est gritando com minha esposa?
- Sua esposa! - retrucou ele com escrnio. - Voc acredita msmo que
ela  sua esposa? Ora, vamos, voc no  nenhum tolo, Ockley! Sabe to
bem quanto eu que neste pas casamento com menor de idade s  vlido
legalmente com o consentimento do tutor.
- Ns casamos com uma licena especial - disse o visconde -, o vigrio
que realizou a cerimnia no fez perguntas. Portanto, se preferir, estou
disposto a levar a questo aos tribunais e vou alegar compaixo, diante
dos juizes, como motivo que me levou ao casamento- Compaixo? Voc pode 
ameaar e fazer barulho, Ockley, mas eu vou levar minha sobrinha comigo 
imediatamente e dar a ela o castigo que merece por fugir de casa e se 
atirar nos seus braos.
Sir Aylmer estava falando aos gritos e ficou surpreso de ver um sorriso 
nos lbios do visconde.
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Espero que repita o que acabou de dizer, exatamente com essas
alavras, diante dos juizes. Como j disse, fossem quais fossem meus
sentimentos em relao a sua sobrinha, no posso permitir que uma
garota delicada, que  pouco mais do que uma criana, seja tratada com
essa brutalidade e desumanidade que arrancaria lgrimas aos jurados
mais insensveis!
Fez-se silncio por algum tempo, depois sir Aylmer falou j sem gritar.
- No sei de que est falando.
- Estou dizendo - disse o visconde, rspido -, que se decidir recorrer  
Justia para anular nosso casamento, eu pretendo levar minha mulher ao 
tribunal e mostrar a todos o modo como tem sido tratada. O senhor deixou 
suas marcas bem ntidas nas costas dela e isto, sir Aylmer, servir para 
mostrar ao mundo, principalmente, ao mundo social no qual gosta tanto de 
brilhar, exatamente o tipo grosseiro e bruto que  e sempre foi!
Houve um total silncio. Em seguida sir Aylmer falou, em tom conciliador.
- Bem... talvez eu tenha sido um pouco precipitado...  claro que se est 
satisfeito com esse casamento esquisito, no tem sentido eu querer anul-
lo.
- Seria absolutamente intil! E agora, sir Aylmer, tenho certeza de que 
seus cavalos esto impacientes para irem embora -, disse o visconte,
abrindo a porta da sala.
Sir Aylmer arregalou os olhos para ele, incrdulo.
- Est me expulsando de sua casa, Ockley?
- Estou apenas deixando claro que prefiro o senhor l fora e no aqui 
dentro. bom dia, sir Aylmer!
No havia mais nada a fazer e sir Aylmer atravessou o saguo e saiu. O 
rosto estava contorcido de raiva e ele resmungava baixinho. Assim que
saiu, Hawkins bateu a porta estrondosamente.
Da sala, o visconde ouviu e Jemima no pode reprimir um gritinho de 
entusiasmo.
- Ah... voc foi maravilhoso! Obrigada... muito obrigada mesmo! Ela disse 
isso e cobriu o rosto com as mos como se quisesse impedir
as  lgrimas que queriam rolar de seus olhos.
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CAPTULO IV

O visconde e Jemima estavam voltando para casa depois de terem ido
almoar fora. No caminho, os dois riam divertidos. 
A notcia de que o visconde se casara com uma Barrington, mas no com a 
que o mundo social chamava de "a certa", j chegara aos ouvidos de vrios 
amigos e conhecidos.
Quando saram para almoar com a condessa de Lincoln, Jemima tinha 
certeza de que o convite tinha sido motivado por curiosidade pura. Fato
que foi confirmado quando viu a expresso do olhar dos outros convidados.
Ela e o visconde tinham chegado mais tarde, depois da maioria das 
pessoas, e quando foram anunciados e entraram fez-se um silncio 
repentino, o que indicava que estavam falando deles. Todos os olhares se 
concentraram nos dois enquanto a anfitri os recebia e em seguida levava 
Jemima para ser apresentada primeiro s damas depois aos cavalheiros.
Jemima sabia que estava elegante e bem-arrumada no seu vestido verde-
folha com chapu combinando e isso lhe dava segurana. Tinha custado 
carssimo, mas,  medida que cumprimentava as pessoas e ouvia elogios, 
certificava-se de que valera a pena.
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Durante todo o almoo, e mesmo depois, ela foi bombardeada por
perguntas. Todos queriam saber por que nunca a tinham visto em Lodres
antes de se casar ou, pior ainda, por que nunca a tinham encontrado
na casa do tio, nas festas que costumava dar.
com muita esperteza ela conseguiu evitar as respostas diretas e no tinha
dvidas de que assim que ela e o visconde sassem dali, os outros iriam
comentar tudo o que dissera e iriam concluir que havia algum mistrio em
torno dela.
O visconde, entretanto, estava encantado com o burburinho e agitao que 
tinha provocado na sociedade.
Enquanto almoavam, ele observou que Jemima se portava muito bem e estava 
a altura das outras damas e que os homens estavam fascinados por ela, 
cuja beleza era um contraste total com a da prima.
O visconde percebeu com satisfao que havia pelo menos quatro pessoas 
naquela sala que eram amigas ntimas de sir Aylmer e Niobe e tinha 
certeza de que tudo o que fosse dito ali seria repetido para os parentes 
de Jemima antes do fim do dia.
Ainda estava exultante pela maneira como tinha subjugado sir Aylmer. Ele 
o vencera de tal modo que tinha certeza de que o tio de Jemima jamais 
voltaria a importun-los. E tal atitude tinha provocado elogios de 
Freddy.
- Voc foi muito esperto, Valient - dissera ele. - Teve presena de 
esprito. No sei como lhe ocorreu to rpido que a reputao social dele 
era a nica coisa que defenderia a qualquer preo!
- Est se esquecendo - retrucara o visconde -, que ele s ia casar a 
filha comigo porque tenho um ttulo e que preferiu outro mais importante?
O tom amargo fez com que o amigo percebesse que seu orgulho ferido ainda 
no cicatrizara e com muito tato procurou mudar o rumo da conversa.
- S acho uma pena no podermos contar a faanha a nossos amigos, mas no 
ficaria bem para Jemima se soubessem que ela apanhava do tio.
- No,  claro que no! Isso  um segredo s entre ns trs. Agora, ali 
na mesa de almoo, olhando para Jemima, linda e elegante,
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o visconde pensava que ningum poderia imaginar que ela era a mesma garota
mal vestida e assustada que se escondera em sua carruagem para fugir de
outra surra.
Na volta, dirigindo a carruagem que Freddy emprestara, assim qUe se 
afastaram da casa da condessa, Valient disse:
- Foi excelente! Aposto como esto todos comentando e falando de ns e 
era justamente isso que eu queria!
- Por que isso lhe d tanta satisfao assim? - perguntou Jemima.
- Porque sei que Niobe vai ficar sabendo de como voc est linda, dos
elogios que recebeu e de todos os comentrios e vai ficar furiosa!
- Voc a odeia, mesmo, hein?
- E o que voc queria que eu sentisse por ela?
Jemima no pde deixar de pensar que quando algum ama de verdade no 
quer magoar o outro e depois que seria impossvel deixar de amar assim 
to rpido, de uma hora para outra. Ele devia estar reagindo assim porque 
estava magoado e com o orgulho ferido, humilhado, seus
sonhos tinham sido desfeitos... era isso. No podia ter deixado de
amar Niobe.
Ele tinha sido to ardente ao cortej-la! Como Niobe gostava de se 
vangloriar, mostrava a Jemima todas as cartas que Valient escrevia a 
ela... cartas apaixonadas, cheias de tal ardor e adorao que quase 
chegavam a queimar o papel onde eram escritas.
- Jemima no conhecia o amor, mas sabia que era um sentimento muito 
forte. Ela lera vrias histrias de mulheres de aristocratas russos que, 
por amor, seguiram seus maridos exilados na Sibria, ou de francesas que 
tinham enfrentado a guilhotina com um sorriso nos lbios, s para 
morrerem junto com o homem amado. E era assim que Jemima achava que era o 
amor: forte e indestrutvel. Portanto, achava que por mais cruel que 
Niobe fosse e por pior que ela tratasse Valient ele no deixaria de am-la 
nunca, porque era inevitvel.
Entendia bem a atitude dele de ter se casado com ela s para espicaar 
Niobe. s vezes,  noite, quando estava sem sono, ficava pensando o que 
teria lhe acontecido se no tivesse se casado com o visconde e tivesse 
ido para Londres conforme pretendia, apenas com dois guinus na bolsa e 
sem conhecer ningum.
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O fato de estar casada com um homem que a tratava bem e com considerao,
e que lhe dera um nome e um ttulo, causava-lhe tanta alegria
que mesmo agora, depois de vrios dias de casada, ela ainda se perguntava
se no estaria sonhando.
Mas o que a deixava mais feliz do que tudo isso ainda, era o fato de ter
a agradvel companhia de dois cavalheiros com quem podia conversar,
trocar ideias, rir e se divertir sem precisar temer recriminaes,
caoadas e surras.
Mil vezes por dia ela rezava e agradecia a Deus a sorte e a felicidade 
que tivera. Tinha certeza de que fora sua me quem fizera o visconde 
cruzar seu caminho na hora certa e salv-la.
Enquanto morava com o tio, muitas vezes pensava que Deus no existia, que 
no havia cu nem nada disso e que os pais tinham morrido e nada sobrara. 
Mas agora sabia que estava enganada.
De algum lugar eles a estavam olhando e cuidando dela como faziam em vida 
e ela sabia que no os perdera por completo.
- Bem, um obstculo j vencemos - comentou o visconde, j em Berkeley 
Square. - Agora, qual ser o prximo?
Jemima ia responder com uma piada leve e descontrada, quando viu, 
surpresa, Hawkins correndo na rua em direo a eles.
- Veja,  Hawkins. O que ser que ele quer? - disse ela.
O visconde, que tambm o tinha visto, puxou as rdeas dos cavalos 
obrigando-os a parar. Hawkins aproximou-se da carruagem e como viera 
correndo levou alguns segundos para tomar flego.
- O que houve? O que foi que aconteceu? - perguntou o visconde.
- Eu vim correndo para avisar milorde... temos encrenca!
- Que encrenca?
- Os credores descobriram que milody no  a srta. Barrington que eles 
estavam imaginando.
Jemima olhou para ele espantada e apreensiva. - Como  que voc sabe 
disso? - perguntou Valient. - Eles esto esperando o senhor, milorde... 
so uns dez... e esto furiosos e impacientes!
Por instantes houve silncio, depois o visconde disse:
- Bem, a nica coisa que posso fazer  enfrent-los.
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- Eu sabia que falaria assim, milorde, mas achei que devia avisar,
- Obrigado, Hawkins. V na frente. Ns iremos devagar. Hawkins no
contestou, virou-se e voltou para casa depressa. O
visconde esperou que ele se adiantasse bem e depois instigou os cavalos.
- Voc tem algum dinheiro para pag-los? - perguntou Jemimc em voz baixa.
- Nem um centavo!
- Est falando srio?
-  claro, estou dizendo a verdade. Eu tenho vivido de emprstimos
bancrios, mas ontem mesmo recebi uma carta do banco dizendo que no
podem mais me emprestar dinheiro.
- Mas por que voc... - comeou Jemima, mas mordeu a lngua. Quem era ela
para dizer a ele que tinha sido tolice ele fazer emprstimos que no
poderia pagar?
Afinal, ela prpria tinha contribudo para agravar a crise financeira 
dele, aceitando vestidos caros que tinham comprado em Bond Street e 
vrios outros acessrios que ela achara necessrios na ocasio.
- O que vai fazer agora? - perguntou ela, assustada. O visconde parou a 
carruagem em frente a sua casa e o cocheiro de Freddy, que estava 
esperando, pegou as rdeas que ele entregou. Valient no respondeu a 
pergunta. Desceu da boleia e j havia dado dois passos quando se lembrou 
dos hbitos de cortesia e voltou para ajudar Jemima descer.
Entraram juntos, enquanto Hawkins segurava a porta para eles. Os homens 
estavam esperando no saguo.
Eram todos comerciantes. Um deles Jemima sabia que era o aougueiro, 
outro parecia ser o fornecedor de vinhos. Um dos homens adiantou-se para 
falar em nome de todos. Era o mais elegante e parecia ser um alfaiate.
- Boa tarde, cavalheiros! - disse o visconde em tom cordial. - O que 
desejam?
- Acho que milorde sabe a resposta - disse o porta-voz do grupo.
- Estou representando o sr. Weston, milorde, e tenho aqui uma conta de 
trezentos e oitenta e cinco libras que j  muito antiga e vamos pedir 
pagamento imediato!
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Todos os outros tambm retiraram contas dos bolsos, acenando com elas 
como se fossem bandeiras e dizendo em voz alta e ao mesmo tempo.
- Minha conta  de cento e oitenta e nove libras! A minha  de
duzentas!... a minha  de noventa e cinco!
Era difcil entender o que cada um dizia naquela balbrdia mas era bvio
que estavam todos muito agressivos e as vozes eram rspidas e exigentes.
- Ser que se incomodariam de me dizer - falou o visconde, com calma -,
por que decidiram de repente virem cobrar assim de modo to imprprio e
inconveniente, justo neste momento?
- Milorde sabe a resposta disso tambm - respondeu o mesmo homem que 
falara antes.
- No tenho a menor ideia. Talvez seja melhor que vocs me expliquem.
Jemima sabia que o ttulo de nobreza infundia um certo respeito temeroso 
neles e todos estavam constrangidos.
E ento um homem que estava mais atrs no grupo e mal podia ser visto, 
gritou:
- O senhor no casou com a noiva que estvamos imaginando!
- Mas que descuido o meu! - disse o visconde, sarcstico. -  que no 
podia imaginar que todos os clientes consultavam os senhores antes de 
pedirem a mo de uma moa!
- Jogo de palavras no vai saldar suas dvidas, milorde - disse o 
representante do alfaiate - e, depois, estamos todos de acordo.
- Sobre o qu?
- Decidimos que se o senhor no nos pagar, levaremos o que o senhor
possui ou, se preferir, poremos no protesto para que v a leilo.
Houve uma pequena pausa, em seguida o visconde falou, ainda em tom
sarcstico.
- Se levarem estaro agindo contra a lei. Eu no possuo nada de que possa
dispor. A propriedade no campo, as casas, a moblia, os quadros... tudo
pertence a meus herdeiros.
Houve um silncio e Jemima percebeu que eles ficaram desconcertados com o
que ouviram e sem saber o que fazer. Mas logo um dos homens gritou.
63
- Ento, s lhe resta a priso, milorde! Vai ficar na Fleet Prison, at
que nos pague!
O corao de Jemima quase parou. Ela conhecia a fama de Fleet Prison,
sabia que l os devedores definhavam e s vezes at morriam em
consequncia das pssimas condies, antes que um amigo ou parente os
libertasse pagando as dvidas.
Olhou para o visconde horrorizada e percebeu que, com admirvel
autocontrole, ele no mudara de expresso. Contudo, sabia que ele estava
perturbado pois como estava bem perto viu uma veia pulsando.
- Se  essa a atitude que resolveram tomar, ento no posso fazer nada - 
disse ele -, mas seria querer tirar leite de pedras!
Houve um pequeno rumor no grupo e Jemima no pde deixar de compar-los a
ces de caa quando encurralam a raposa. De repente, antes que algum
dissesse algo mais, ela falou:
- Gostaria de dizer algo.
Foi to inesperado que no apenas os credores mas tambm o visconde 
olharam para ela surpresos. O corao dela batia apressado e foi com 
certa dificuldade que conseguiu falar afinal.
- Eu posso no ser a Barrington que vocs esperavam que fosse casar com 
milorde, mas sou sobrinha de sir Aylmer e acho que tenho uma soluo para 
este problema.
- Estamos prontos para ouvir, milady. Qual  a soluo?
- Como milorde disse - continuou ela -, ele no pode vender as casas pois 
esto vinculadas, mas isso no impede que as alugue por um bom preo. - 
Ela viu as expresses dos homens e disse depressa:
- Sei que pode no ser muito, diante do que ele lhes deve, mas pelo menos 
recebero aos poucos e agora que o visconde sabe da gravidade do
problema no vai aumentar a dvida.
Depois de uma breve pausa o mais agressivo deles falou de novo.
- E como  que a senhora sabe se ele vai encontrar algum que alugue esta 
casa aqui?
- Na verdade, j tenho algum em mente - retrucou Jemima. E o que eu 
gostaria de sugerir, cavalheiros,  que dem vinte e quatro horas ao
visconde para que ele e eu vejamos se podemos conseguir uma parte desse
dinheiro que ele deve. Quanto ao aluguel, ele dividir entre
64
os senhores, sem tirar nenhum centavo. Acho que podero confiar na palavra
dele. - Ela percebeu uma certa indeciso entre eles e acrescentou: - Os
senhores ho de concordar que essa  uma soluo mais sensata, na qual
levaro vantagem: se mandarem milorde para a priso, no recebero um
centavo do que lhes  devido, mas se o deixarem em liberdade, ele e eu
juntos faremos o que pudermos para saldar todas as dvidas no menor prazo
possvel.
Por um momento, Jemima ficou em desespero, pensando que falhara em sua
tentativa e que eles no iriam aceitar. Mas, ento, o alfaiate que estava 
mais perto dela e talvez tivesse se comovido com o tom de sinceridade e a 
indiscutvel beleza dela, disse:
- A senhora permite, milady, que eu discuta com os outros a sua sugesto? 
Ns no demoraremos.
Jemima olhou para o visconde.
- Ns esperaremos na sala - disse ele -, enquanto os senhores decidem.
Deu um passo e o grupo abriu passagem para ele e Jemima. Hawkins abriu a 
porta da sala para que entrassem e fechou-a de novo. O visconde caminhou, 
em silncio, at o fundo e parou diante da lareira com o olhar baixo.
- Peo que me desculpe... se o que disse foi inoportuno - disse ela num 
fio de voz -, mas  que... fiquei com medo, fiquei apavorada de pensar 
que eles iriam mand-lo para a priso.
- No... foi muita presena de esprito dizer o que disse. Voc agiu com 
sensatez. O que est me preocupando  como  que eu fui deixar as coisas 
irem to longe assim sem perceber que esse seria o fim inevitvel de quem 
no paga dvidas.
- Talvez voc consiga pag-las... da forma que eu sugeri.
- Como? Voc acha mesmo que pode conseguir um inquilino para esta casa?
- Acho que sei de algum que gostaria de alug-la, mas  claro que s 
isso no ser suficiente para pagar os credores. Deve haver um Jeito de 
conseguir dinheiro com as outras propriedades!
O visconde deu um riso nervoso.
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- Se houvesse, meu pai j teria feito isso h alguns anos! Jemima, 
melhor deixar que eu v para a priso e acabe logo com isso.
- E vai entregar os pontos assim? - retrucou ela, sem refletir
- Nunca imaginei que voc fosse covarde!
- Covarde? - Ele virou-se para ela e estava sem dvida bravo. - J fui
acusado de muitas coisas em minha vida, mas jamais algum insinuou que sou
um covarde!
- Pois ento,  melhor comear a lutar, essa  sua batalha.  como se
estivesse em Waterloo!
Ele a contemplou furioso por alguns segundos e depois repentinamente
comeou a rir. Foi to inesperado que ela o fitou de olhos arre galados e
como ele no parasse, perguntou:
- O que voc acha assim to engraado...
- Voc!  engraado pensar que uma mulher esteja me instigando a lutar.
Logo eu que estive na guerra e vivi to perigosamente vendo a morte de
perto.
- Pode ser que no esteja arriscando a vida nesta batalha, mas se voc
perder a liberdade, no vai mais valer a pena viver. O visconde riu de
novo, depois ficou srio.
- Voc tem razo, Jemima,  claro! E se voc conhece mesmo quem esteja
disposto a pagar bem por esta casa, eu lhe ficarei grato. S espero que
essa pessoa exista mesmo, caso contrrio os cavalheiros a fora vo se
tornar extremamente desagradveis.
- Ele existe sim, e ns iremos procur-lo assim que as visitas sarem.
- Pode ser que no queiram sair a no ser para me levar com eles ao 
Tribunal,
- Ora, deixe de ser to pessimista e desanimado!
O visconde riu de novo e nesse momento Hawkins abriu a porta.
- Eles querem falar com o senhor, milorde - disse o empregado. O visconde 
dirigiu-se para a porta e Jemima o seguiu mesmo sem
ter sido convidada,
- Ento, chegaram a um acordo? - perguntou.
- Ns decidimos - disse o alfaiate, que continuava a ser o portavoz do 
grupo - aceitar a sugesto de milady para experimentar, mas
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gostaramos de deixar bem claro qu o aluguel integral tem que ser 
Dividido entre ns e que pretendemos que a dvida esteja liquidada antes 
do Natal, milorde.
- Aceito a proposta dos senhores - disse o visconde - e assim que a casa 
estiver alugada podem estar seguros de que farei o dinheiro chegar a suas 
mos para que seja dividido, conforme sugesto de minha mulher.
- Obrigado, milorde.
Agora, diante da possibilidade de receberem o dinheiro, mesmo aos poucos, 
eles tinham mudado a maneira de falar e Jemima percebeu que alguns 
estavam at embaraados e um tanto apreensivos pelo modo como tinham se 
portado.
Ela no pde deixar de pensar, com tristeza, que tudo acontecera por sua 
causa. Os credores jamais teriam feito aquilo se o visconde tivesse se 
casado com a herdeira rica. Tinha quase certeza de que pelo menos aqueles 
comerciantes sabiam que ela era uma parenta pobre e sem dote. Eles eram 
todos muito unidos e estavam em contato com os criados das casas dos 
aristocratas. Bastava que um dos empregados de sir Aylmer tivesse aberto 
a boca para dizer quo insignificante e sem importncia Jemima era, para 
que logo todos estivessem sabendo. Por isso Jemima sentia que era seu 
dever ajudar o visconde e salv-lo daquela situao.
Assim que todos saram e Hawkins fechou a porta, Valient olhou para ela.
- Bem, e agora, o que faremos? - disse ele.
- Vamos pegar uma carruagem de aluguel e vamos  cidade.
-  cidade - surpreendeu-se o visconde.
Mas Hawkins, sem esperar instrues, j estava na rua fazendo sinal para 
parar uma carruagem.
No caminho, Jemima explicou o que iriam fazer:
- Embora eu nunca tenha participado das refeies que meu tio oferecia 
aos nobres, quando ele recebia os scios em vrios de seus negcios ele 
me pedia para ajudar a entret-los. Achava que Niobe no tinha jeito para 
isso, que iria trat-los com desdm e tio Aylmer no
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queria ofend-los para no prejudicar a sociedade. Por isso, ele mandava
que eu me sentasse  mesa com eles e me fizesse agradvel.
- E voc obedecia? - sorriu o visconde.
- Que remdio? Mas muitos deles eram bastante simpticos e agradveis.
E, depois, achava fascinante notar como eles eram diferentes dos nobres 
aristocratas como voc. - O visconde escutava atento e ela continuou. - 
Eles so rudes, astutos, calculadores, e s vezes at impo lidos e 
incultos, mas todos tm algo em comum.
- O que ?
- Um jeito determinado e resoluto de quem conquista as coisas e no de
quem as recebe de mos-beijadas. No sei bem o qu, mas havia algo neles
que eu achava muito interessante.
Ela fez uma pausa e o visconde disse:
- Continue! Estou entendendo bem o que me diz.
- O senhor Joshua Roseburg, que vamos visitar agora,  um deles e  o 
mais bem-sucedido de todos financeiramente.
- O que ele faz?
- Ah, ele lida com tudo que d dinheiro. Sei que h alguns anos at com 
comrcio de escravos ele estava envolvido. Ele e meu tio eram scios.
- Comrcio de escravos? - O visconde surpreendeu-se.
- , sei que  algo vil e desprezvel mas no resta dvida de que vrias 
pessoas na Inglaterra fizeram fortuna  custa disso.
- Foi o que sempre ouvi dizer.
- Tio Aylmer ficou pouco tempo na sociedade desse negcio, mas acho que 
quando parou j havia feito um bom dinheiro.
- E por que seu tio continua scio dele em outras coisas?
-  claro que ele no fala essas coisas para mim, mas um comentrio aqui 
outro ali... juntando tudo compreendi que o sr. Roseburg  til ao tio
Aylmer e  uma pessoa que ele no tem a menor inteno de ofender.
- Por que voc acha que ele vai se interessar em alugar minha casa?
- Uma vez, quando estvamos almoando na casa de tio Aylmer, em Londres, 
ele comentou antes de sair que meu tio  que era feliz de poder desfrutar
de uma propriedade daquelas. Meu tio disse que ele
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tinha dinheiro o bastante para comprar uma tambm, talvez at maior.
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e disse que no tinha a menor chance de se equiparar aos nobres, que o
lugar dele era em Cheapside, do outro lado da cidade, e que ningum
venderia uma casa para ele no bairro aristocrata.
- Mas por que voc acha que ele vai alugar minha casa? - insistiu
O visconde.
- Porque tenho certeza de que o sonho dele  poder morar numa casa como a 
sua, bem no coraode Mayfair, e se ns oferecermos a oportunidade ele
no vai recusar.
Mesmo sem ele ter dito nada, Jemima sabia que o visconde estava descrente 
e achando-a muito otimista.
Quando chegaram ao escritrio do sr. Roseburg, em Cheapside, foram
conduzidos at a sala dele e o visconde ficou surpreso com o modo efusivo 
como foram recebidos.
- Ora, vejam s, milady, mas isso  uma grande honra! - disse ele 
cumprimentando Jemima. - Quando me disseram que era a senhorita e no sua 
prima quem tinha se casado com o visconde eu pensei que fosse mentira!
- Mas no , sr. Roseburg,  verdade mesmo. Deixe-me apresentar meu 
marido que est muito ansioso para conhec-lo.
O sr. Roseburg estendeu a mo e trocaram cumprimentos cordiais. Depois 
ele pediu que se sentassem e mandou um criado servir vinho, mas tanto 
Jemima quanto o visconde perceberam que ele os olhava meio desconfiado.
- Pois bem, ento, o que posso fazer pelos jovens? - ele perguntou, num 
tom que deixava evidente estar pensando que os dois tinham ido pedir 
dinheiro emprestado.
Jemima olhou para ele, sorrindo.
- Creio, sr. Roseburg - disse ela -, que podemos oferecer-lhe a 
oportunidade de realizar uma de suas ambies. Ao mesmo tempo estaria nos 
ajudando, tambm.
- De que forma?
- Milorde e eu estamos ansiosos para irmos para o campo - disse Jemima. - 
Seria timo para uma lua-de-mel, ficarmos l isolados, longe de todos. 
Porque, o senhor sabe, desde que nos casamos, os amigos tm
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sido muito gentis e nos cobrem de convites para jantar e almoar mas o
senhor entende, ns bem que preferamos ficar a ss por algum  tempo...
Ela fitou o visconde com olhar entre tmido e ardente para que sr.
Roseburg pensasse que eles estavam realmente apaixonados.
- E qual  a dificuldade, milady? - perguntou ele, sem entender onde ela
queria chegar.
-  que precisamos de algum para tomar conta da casa de milori; em 
Berkeley, e achamos que o senhor gostaria de ser nosso inquilino. Ele fez 
cara de surpresa como se nunca tivesse considerado tal hiptese e ela
continuou: - J ouvi o senhor elogiar a casa de tio Aylme em Londres, e a
de milorde  mais antiga e eu acho mais bonita ainda, alm disso, a
vizinhana  bastante seleta, s moram nobres naquele bairro. E o que 
mais importante, o senhor e a sua esposa vo achar bem mais prtico e
mais fcil para fazer compras e ir a teatros.
 medida que falava percebia que o sr. Roseburg ia se entusias mando com
a ideia. Tinha certeza de que a mente dele, gil e astuta, j estava
considerando as vantagens de ser inquilino de um nobre e viver em uma
casa onde teria orgulho de receber seus amigos e colegas do comrcio.
-  uma ideia que nunca me ocorreu, milady - disse ele, quando Jemima fez
uma pausa. - E quanto esto pensando em pedir pelo aluguel da casa?
- Quanto o senhor quiser pagar! - respondeu Jemima, desarmando-o. - O
senhor sabe muito bem, sr. Roseburg, e eu estou sendo muito franca com o
senhor, que no sou uma rica herdeira como minha prima e no quero ser um
fardo para meu marido. A vida est ficando cara.
Ele riu.
- Voc sempre fala o que pensa - disse ele -, e  por isso que sempre
gostei de conversar com voc quando ia visitar seu tio. Costumava achar
uma pena que voc no fosse um rapaz, pois poderamos fazer negcios
juntos.
- Pois  justamente o que estou lhe propondo agora, sr. Roseburg!
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Sem dvida! - disse ele, surpreso, depois olhou para o visconde.
- E o que milorde acha disso tudo?
- Depois de tudo o que minha esposa me contou a seu respeito, sr.
Roseburg - disse o visconde -, eu ficarei encantado e muito honrado se o
senhor ocupar minha casa.
- Eu lhe agradeo, milorde.
- Por que no vai nos visitar hoje  tarde, depois que sair daqui?
disse Jemima. - Pode levar sua esposa,  claro, assim podero ver
se gostam da casa.
- Obrigado, mas ela sempre deixa essas decises para mim - disse o sr.
Roseburg. - Contudo, aceito seu convite, milady, estarei l s cinco
horas, se for conveniente para o visconde,  claro.
- Estarei a sua espera com muito prazer, sr. Roseburg - disse o visconde.
No caminho de volta, na carruagem de aluguel, Jemima disse:
- Ele vai ficar com a casa, tenho certeza! Quanto deveramos pedir a ele?
- Quanto pudermos conseguir est bom. - O visconde olhou para ela. - Ser
que voc sabe em que est se metendo?
- Como assim? Explique-me.
-  que voc vai achar a propriedade de campo um horror.
- Por qu?
- Porque deixaram que ela se arruinasse totalmente, durante a guerra,
quando eu estava na Frana. Meu pai vivia em Londres e abandonou-a de uma
vez. Depois no havia dinheiro para restaur-la e eu nunca mais fui para
l; desde que voltei para a Inglaterra, estive l s de passagem para ver
o quanto est dilapidada.
- Pelo menos tem um teto?
- Espero que ainda tenha, embora, sem dvida, esteja cheio de buracos.
- Quem est cuidando da propriedade?
- Ningum. No podia me dar ao luxo de manter empregados l.
- Mas tem moblia, no tem? Louas e panelas para se cozinhar...
- No posso responder essa pergunta porque na verdade nem sei
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mais... Deve ter camas nos quartos e alguns mveis, mas o resto, no sei.
Provavelmente deve ter sido comido por traas e ratos ou foram
roubados.
Houve um silncio e quando Jemima falou foi em voz baixa.
- Mas, no h outra alternativa... h?
- No, nenhuma. A no ser que peamos abrigo na casa de amigos. Por falar
nisso, estamos perto da casa de Freddy...
- No! Isso nunca! - disse Jemima com veemncia.
- Por que disse isso, assim?
- Porque como parenta pobre posso falar por experincia prpia, e no h
coisa pior do que depender de algum e dever favores. Acho, embora
possa pensar que estou errada, que voc devia recomear da estaca zero,
recuperar-se e estabelecer-se sem a ajuda de ningum.
- Sem dvida voc tem um tiro certeiro, sempre, Jemima - disse ele,
empertigando-se.
- Agora que voc est casado, as coisas so diferentes. Voc tem uma
esposa e eu acho que essa  uma batalha que ns dois devemos vencer
juntos sem recorrer a ningum, mesmo que ofeream ajuda.
- Parece-me que voc est me dizendo o que devo e o que no devo fazer...
- Acho que isso voc sabe muito bem, estou apenas expressando minha
opinio, porque gosto de falar o que penso.
- Belas palavras para fatos desagradveis! - comentou o visconde. Jemima 
olhou para ele e no conseguiu decifrar se ele estava ou no
aborrecido com ela.
Trs dias depois, Jemima viu, pela primeira vez, a propriedade rural dos 
Ockley que tinha sido um antigo mosteiro at o reinado de Henrique VIII, 
quando houve a Dissoluo dos Mosteiros. Dois sculos mais tarde, foi 
comprado por um Ockley que achou a construo bonita e interessante.
Tinha sofrido algumas reformas com o passar das geraes mas conservava a 
mesma estrutura bsica e o mesmo estilo. Quando Jemima viu, no pde 
reprimir uma exclamao entusistica.
- Mas  linda! Que maravilha!
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Realmente, de longe parecia linda: construda ao lado de um riacho perto 
de um bosque de pinheiros, era feita de pedras de cor cinza, grandes, e as
imponentes chamins se recortavam contra o cu. Concretizava o natural
desejo dos monges de paz e quietude, de uma vida sossegada. E Jemima, 
olhando para aquele casaro ao longe, teve a estranha impresso de que j 
conhecia o lugar. Sentiu-se como se estivesse chegando em casa.
- Espere s para ver como est por dentro! - disse o visconde, num tom 
seco, enquanto continuava a conduzir a carruagem que mais uma vez pedira 
emprestada a Freddy para fazer a viagem.
Freddy oferecera e embora Jemima tivesse dito que no aceitariam nada, 
sabia que ficaria muito caro alugar um coche para lev-los de Londres at 
l. Por isso, teve de engolir o orgulho e aceitar mais esse favor.
Freddy estava entusiasmado com a ida deles, pois ficariam mais perto de 
sua propriedade que se situava a oito quilmetros dali, embora no 
acreditasse que eles fossem ficar morando no campo para sempre. Foi 
Jemima quem o chamou de lado e explicou toda a situao e o motivo da 
mudana.
- Valient j lhe contou - perguntou ela -, por que somos forados a sair 
de Londres?
- Ele disse qualquer coisa a respeito de ter recebido uma boa oferta pela 
casa dele em Berkeley Square.
- Os credores ameaaram mand-lo para Fleet Prison!
- Meu Deus! - Freddy ficou perplexo e no escondeu seu espanto. - No
imaginava que as coisas estivessem assim to srias, que tivessem chegado 
a esse ponto!  claro que sabia que Valient estava numa enrascada, mas... 
- Jemima fez meno de dizer qualquer coisa, mas ele a impediu, 
acrescentando logo: - Voc sabe que se ele fosse mandado para a priso eu 
o tiraria de l sem titubear, no ?
- Tenho certeza de que faria isso - respondeu ela. - Mas acontece que o 
visconde tem de enfrentar a realidade; e a realidade  que ele no tem 
dinheiro e precisa fazer algo para consegui-lo.
- De que maneira?
- Ns ainda no sabemos bem. Por enquanto achamos um inquilino
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para a casa de Berkeley Square e, quando chegarmos ao campo, ter de
pensar numa maneira de ganharmos algum dinheiro para que possamos viver.
Freddy contemplou-a por alguns instantes.
- Voc pode achar estranho o que vou lhe dizer, Jemima, mas voc 
exatamente o tipo de mulher que Valient estava precisando encontrar h muito tempo.
- Por qu?
- Ele precisava de algum que o estimulasse e o pusesse em aco para
viver. - Fez uma pausa e continuou. - Na guerra, Valient foi
 magnfico!
No apenas de uma coragem extraordinria, mas cuidou sempre de todos os
homens sob seu comando e tinha um poder de liderana espantoso!
- Mas a guerra acabou.
- Pois . Acho que, depois disso, Valient ficou sem objetivos, meio
perdido, sem saber em que aplicar sua energia, inteligncia e vitalidade
E acho que agora voc talvez tenha encontrado esse objetivo para ele
- No! O problema  justamente esse! Ele  quem tem de encontrar, 
sozinho. O importante  o que ele faa, no o que ns faamos por ele.
Freddy contemplou-a longamente.
- Diga-me o que voc quer que eu faa, ento, e eu farei com prazer.
Jemima sorriu para ele.
- Obrigada. S quero lhe pedir que no seja generoso demais com ele. No 
sei em que estado vamos encontrar a propriedade rural, mas ele precisa
sair dessa situao sozinho.
- Em runas, cheia de p e ratos!  assim que vo encontr-la. Jemima riu 
com certa apreenso.
Agora, passando com a carruagem pela descuidada alameda de entrada, 
Jemima entendia por que o casamento com uma rica herdeira teria sido to 
importante. Era natural que Valient quisesse restaurar a casa de seus 
ancestrais para poder viver l. Por isso, escolhera Niobe! Acontece que 
tinha se apaixonado por ela de verdade e isso seria a felicidade completa 
para ele se tivesse dado certo. Jemima suspirou baixinho,
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lamentando o fato de no ser rica. Depois, lembrou-se que a casa de seus 
pais fora pobre mas cheia de felicidade e riso enquanto que a manso de 
sir Aylmer era sombria e triste.
No podemos ter tudo na vida! - disse ela mentalmente, com
firmeza. - O importante  aproveitarmos da melhor maneira o que temos!
Quando o visconde fez parar os cavalos, diante da porta do antigo 
mosteiro, ela viu a expresso do rosto dele.
- Bem, aqui comea nossa grande aventura - disse ela com bom humor, 
tentando entusiasm-lo. - Ele a olhou, ctico, e ela continuou.
- Voc h de convir que  bastante excitante.  como se estivssemos
explorando uma regio desconhecida e precisssemos achar um meio de  
sobreviver.  ou no  uma aventura?
O tom de voz alegre e o brilho de euforia no olhar dela, por um momento 
afastaram a depresso do visconde.
- Espero que seu otimismo venha a ser justificado, Jemima.
- Se no for, podemos nos afogar no lago - continuou ela, em tom 
brincalho. - com esse calor que est fazendo, at que no  um modo ruim 
de morrer! Mas, por enquanto, acho que o lago vai servir  para tomarmos 
banho!
O rosto do visconde se desanuviou e ele caiu na risada.
- Acho que essa previso est certa - disse ele. - Porm, agora vamos 
entrar e ver como  que est isso a. Cuidado para no se enforcar nas 
teias de aranha!
Ele pulou da carruagem para o cho e ajudou Jemima a descer. Hawkins, que 
estava atrs, passou para a boleia e segurou as rdeas.
- Vou levar os cavalos para o estbulo, milorde - disse ele -, e espero 
que possa encontrar algum para me ajudar a descarregar a bagagem.
- Duvido muito - retrucou o visconde -, mas pode ficar sossegado que eu
mesmo vou ajudar voc.
- Assim  que se fala! nimo! - disse Jemima, parada diante da enorme 
porta de carvalho almofadada.
O visconde tirou a chave do bolso.
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- Est preparada? - perguntou ele. - Acho que vai ter uma surpresa bastante desagradvel quando entrar!
- Eu adoro surpresas! - respondeu Jemima, com firmeza. - Alis, desde que nos encontramos, s tenho vivido de surpresas.
- , isso  verdade. Bem. . . ento, aqui vamos ns!
Ele virou a chave na fechadura e Jemima prendeu a respirao, em expectativa.
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CAPTULO V

Jemima estava lavando a mesa da cozinha quando ouviu passos, no corredor ladrilhado, que pararam diante da porta.
- E, ento, conseguiu? - perguntou ela, sem olhar.
- Consegui me surpreender em saber que voc  to boa dona-decasa! - respondeu uma voz que ela no esperava.
Ela levou um susto e virou-se para a porta. L estava Freddy, parado, 
mais elegante do que nunca, o que a fez perceber de imediato que ela 
estava justamente o oposto da elegncia. Sob o avental todo sujo, usava o 
vestido com o qual fugira da casa do tio.
Afinal, no iria usar um dos caros vestidos comprados em Bond Street, e 
que ainda nem tinham sido pagos, para fazer faxina na casa. Alm do mais, 
no esperava receber visitas.
As mos dela estavam vermelhas de tanto mexer na gua e esfregar as 
coisas para tirar a sujeira, j h alguns dias. Os cabelos em desalinho 
emolduravam o rosto afogueado pelo esforo do trabalho.
- Devia tocar a campainha e se fazer anunciar, antes de entrar na casa 
dos outros! - disse ela em tom zombeteiro, fingindo estar brava.
- Eu toquei - retrucou Freddy -, mas tenho certeza de que deve estar 
quebrada.
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Jemima riu.
- Voc tem razo.  mais uma das coisas arruinadas do velho ca saro!
Freddy entrou na cozinha, pegou uma cadeira e sentou-se ao contrario, com 
os braos apoiados no encosto.
- J imaginava que iria encontr-la fazendo essas coisas - disse ele. - 
Ser que no pode arranjar uma empregada na aldeia?
- No podemos pagar empregados, mas os colonos que moram aqui tm sido
maravilhosos!
Ela largou a escova dentro do balde com gua e tirou o avental na
esperana de melhorar um pouco a aparncia.
- Voc disse para eu me afastar e no interferir e eu obedeci disse 
Freddy -, mas agora no aguento mais de curiosidade. Conte-me como foi a 
chegada e o que aconteceu!
- Exatamente o que espervamos! - respondeu Jemima. - Quando chegamos, 
isto aqui estava to cheio de p e teias de aranha que mal se podia 
respirar.
- Da voc limpou tudo.
- com a ajuda de Hawkins e de Valient, por incrvel que parea.
- O qu? Ele ajudou voc a fazer isso? - admirou-se Freddy. Jemima 
sorriu.
- Pois , embora s vezes ajudasse melhor ficando l fora. A maior parte 
quem fez foi Hawkins, eu e os colonos. Pelo menos agora alguns aposentos 
j esto habitveis.
- Ento, j pode me hospedar!
- No!
- Cus, quanta hospitalidade! disse ele irnico.
- Ah,  que seria muito desconfortvel para voc!
- Pior do que na guerra no pode ser!
- Mas a situao  diferente. Voc tem sido to gentil com Valient que eu 
ficaria constrangida em acomod-lo mal. Teria que tomar banho frio e
dormir em lenis rasgados.
- Se essa  a nica objeo, eu lhe digo que ficarei e voc no vai me 
fazer mudar de ideia.
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- Est bem, ento, mas no reclame se algum rato passar sobre a cama 
enquanto estiver dormindo, ou se roerem suas roupas caras.
- Se est tentando me desanimar ou me assustar, pode desistir. Estou com 
saudades de voc, Jemima, e sinceramente, Londres est muito sem graa 
sem Valient.
- Ah, por favor, no diga isso a ele! Ele j est mais resignado de estar 
aqui e como tem andado to ocupado, com tanta coisa para fazer, no tem 
tido tempo de sentir falta de Londres, como eu temia.
- Foi por culpa dele mesmo que chegou a esse estado de penria. Por que 
ele nunca me disse que as coisas estavam to mal? Quando penso nas 
extravagncias que fizemos!
- Agora no adianta lamentar. O que est feito est feito! Valient tem de 
aprender a viver de acordo com as posses dele. Ainda no sei se vai dar 
certo, mas que estamos tentando, estamos! - Ela fez uma pausa e 
acrescentou em outro tom de voz. - Foi muita bondade sua ter dado a ele o 
dinheiro que estamos usando agora, mas eu tinha pedido que voc no 
fizesse isso...
- Eu no dei o dinheiro, eu comprei o relgio de ouro dele.
- com a condio de restitu-lo assim que ele conseguisse dinheiro para 
recompr-lo de voc! Eu sei. Como  que eu posso fazer Valient entender 
que ele no deve esperar que os amigos o tirem de todas as enrascadas, 
sempre, se voc o ajuda e at o apoia?
Enquanto ela falava, Freddy a contemplava e se perguntava quantas outras 
mulheres teriam agido de forma to natural e estariam conversando assim 
sem constrangimento se tivessem sido pegas em flagrante, como ela, 
fazendo um servio vergonhoso que s devia ser feito por criados.
- Temos uma novidade que Valient vai lhe contar! - disse ela, em tom 
alegre.
- O que ?
- Um de nossos colonos tem dois cavalos selvagens que Valient disse que 
vai domar e trein-los, assim pelo menos teremos montaria.
- Eu ia justamente oferecer dois dos meus cavalos para isso.
- No, Freddy, obrigada, mas no podemos aceitar. E no estou
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pensando s em Valient, mas em voc tambm. Os cavalos do colono esto 
muito bons para ns, por enquanto.
- Mas se so animais bravios como disse, pode ser perigoso... se o cavalo 
derrubar voc? A sim, vai ser pior!
- Acontece que sei montar muito bem. Meu pai sempre foi pobre e eu 
aprendi a cavalgar em cavalos bravios e no nesses que vocs, 
aristocratas, tm. Nunca montei um desses!
- Por isso mesmo gostaria de oferec-los a voc.
- Mas no vai fazer isso, porque eu lhe pedi que no fizesse, no ?
- Se voc prefere assim... - disse ele pesaroso. - Eu entendo o que est 
tentando fazer, Jemima, e admiro-a muito por isso. No sabia que uma 
mulher podia ser to maravilhosa em uma situao to adversa!
Jemima ficou sem jeito com essas palavras e deu um sorriso tmido.
- Ah, em nome dos cus, por que no tive a sorte de ter encontrado voc 
quando fugiu da casa de seu tio!
- Valient no me encontrou... eu praticamente o forcei a me levar com 
ele!
- Pois eu ficaria encantado de ter sido forado por voc! Algo no tom de 
voz dele fez com que Jemima o-fitasse, surpresa.
- Voc se aborreceria, Jemima, se eu lhe dissesse que no pude mais ficar 
longe porque queria v-la? - Jemima baixou as plpebras, mas ele 
continuou. - Acho que me apaixonei por voc desde o primeiro instante em 
que a vi, maltrapilha e assustada, mas ao mesmo tempo incrivelmente linda 
e adorvel... s, que, de modo to absurdo, esposa de Valient.
- Por favor... Freddy, voc no deve... falar-me assim... voc no pode 
dizer essas coisas, eu no devo escutar.
- Por qu? No  como se eu estivesse querendo roub-la de um homem que a 
ama!  diferente!
Ela suspirou baixinho e ele percebeu que a magoara com o que dissera.
- Valient tem sido bondoso e gentil comigo. Ele me salvou quando eu 
estava no auge do desespero, decidida a enfrentar Londres sozinha e sem 
dinheiro... e eu serei eternamente grata a ele por isso...
- Pode ser que voc se sinta grata, mas ser que ele vai saber reconhecer
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 o que voc est fazendo por ele? Ser que saber demonstrar
gratido?
Bela coisa eu estou fazendo! - exclamou ela, movendo as mos
num gesto de desamparo. - Ento, voc no v que se ele no tivesse
casado comigo, num mpeto de momento, querendo se vingar de Niobe,
poderia facilmente ter arranjado outra herdeira rica? Eu sou apenas um
fardo a mais!
Houve um momento de silncio.
- E se eu retirasse esse fardo de Valient? Se eu lhe pedisse, voc iria 
embora comigo, Jemima?
As palavras dele deixaram-na atnita e ela o fitou de olhos arregalados.
- Voc est falando srio? - perguntou, quando conseguiu falar.
-  claro que estou. Eu amo voc, quero voc para mim e juro como a farei 
bem mais feliz do que Valient  capaz. Comigo, sem dvida, voc no teria 
que esfregar cho e viver nesta penria.
Ela ficou em silncio por instantes, depois disse:
- Eu me sinto muito honrada, mas nem preciso dizer qual a resposta. Voc 
sabe.
- Mas por qu? Por que no vem comigo?
- O motivo principal,  parte as convenes ou a questo de certo ou 
errado,  que eu no amo voc.
- Eu ensinarei voc a me amar. Jemima balanou a cabea.
- O amor no  assim. Ou a gente sente, ou no sente. Ningum pode mudar 
isso, ou mandar nos sentimentos - disse ela, como se estivesse pensando 
em outra pessoa.
- No est querendo me dizer que Valient ainda ama aquela sua priminha 
mimada e antiptica, est?
-  claro que sim. Ele pensa nela o tempo todo, achando que a est
odiando, mas na verdade o que est sentindo  amor. Ele vai amar Niobe
para sempre...
Havia um tom de lamento na voz dela que no passou despercebido para ele.
- Ah, agora estou entendendo porque voc est me rejeitando.
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Voc o ama! - Ela no respondeu e ele insistiu. -  verdade, no , 
Jemima? Voc ama Valient! Ela suspirou fundo.
- , eu o amo sim. Acho que o amei desde o primeiro instante em que o vi 
na casa de meu tio, cortejando Nobe. Mas  claro que eu sabia que no
tinha esperanas... principalmente quando li as cartas que ele escrevia 
para ela.
Como se no pudesse suportar o que Jemima estava dizendo, Freddy ergueu-
se da cadeira, foi at a janela e ficou olhando com olhar ausente para o 
quintal.
- Quer dizer que eu-no tenho a menor chance...
-  claro que no. Voc no pode estar pretendendo causar um escndalo, 
fugindo com uma mulher casada, ainda mais esposa de seu melhor amigo! 
Pense no que os outros iriam dizer! J imaginou? Valient poderia at 
achar engraado, mas voc... arruinaria sua reputao! Freddy, eu gosto 
muito de voc para lhe causar esse mal... nunca faria isso!
- Voc me trata maternalmente... Jemima no pde deixar de rir.
- Voc tem razo!  exatamente como me sinto... uma me com dois filhos 
adorveis!
Freddy virou-se para ela.
- Acho que sou capaz de raptar voc... Quero lev-la comigo, para longe 
daqui, cobri-la de jias e fazer de voc a mulher mais feliz do mundo 
para no ter que ver mais esse rcto de tristeza em seus lbios e esse 
brilho de solido em seu olhar!
Jemima fitou-o, perplexa.
-  assim que eu pareo...
- De vez em quando... depende de como Valient a trata. Jemima olhou para 
ele um tanto confusa e depois de contempl-la
ele mudou de atitude.
- Bem, mas eu no vim aqui para aumentar os seus problemas! disse, em 
outro tom de voz. - Vim fazer-lhes uma visita e trouxe algumas coisas 
para voc preparar para ns, alm de uma caixa de champanhe para Valient!
82
Antes que Jemima pudesse dizer qualquer coisa, ouviu-se uma voz
na porta - Ser que ouvi algum falar em champanhe?
- Ol, Valient! - exclamou Freddy, assim que o visconde entrou na 
cozinha.
Ele largou sobre a mesa dois patos e trs coelhos mortos e disse, cheio 
de satisfao:
- Nada mal para uma manh de trabalho, no ? Pelo menos j podemos 
convid-lo para comer conosco, Freddy!
- Eu trouxe alguma coisa tambm - disse Freddy -, mas estou vendo que 
voc continua bom de pontaria!
- Este velho bacamarte j est fora de moda - retrucou o visconde, 
olhando para a arma que tinha na mo -, e para falar a verdade, durante a 
guerra, um francs era um alvo bem maior! Perdi vrios cartuchos at 
acertar esses animais...
- No tem importncia, isto j est timo! - disse Jemima, sorrindo. -
vou levar para a despensa.
O visconde nem fez meno de ajud-la, sentou-se na beirada da mesa e foi 
dizendo:
- Estou contente por v-lo aqui, Freddy! Por que no veio antes?
- Estava em Londres. - Ele viu o olhar do amigo se iluminar e acrescentou 
depressa: - Voc no imagina como est montono aquilo l! Sempre as 
mesmas festas, os mesmos mexericos... desde que voc veio embora no 
aconteceu mais nada de interessante que merecesse comentrios.
- Falaram muito de Jemima e de mim?
Ele ficou em silncio como se estivesse refletindo sobre o que deveria 
dizer, depois comentou apenas:
- Hoje de manh foi anunciado o noivado de Niobe com o marqus!
- Bem, pelo menos acho que consegui estragar a sensao que isso seria, 
no ? - comentou o visconde.
- Sem dvida. Tenho certeza de que ela sabe que a notcia do noivado no 
causou sensao nenhuma!
- Voc no disse que trouxe champanhe? Pois ento bebamos e
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brindemos  infelicidade dela! - disse o visconde, erguendo-se. -. Onde 
que voc colocou?
- Est na carruagem, ou ento meu cocheiro j trouxe para dentro.
- Vamos l ver - disse o visconde, impaciente. - A nica coisa que tem
na adega aqui  um vinho que no  dos melhores, alis, foi por isso que
meu pai deixou sobrar.
- Eu logo imaginei e como pretendo ficar aqui com vocs, se voc no me 
expulsar, trouxe minha prpria rao.
- timo - aprovou o visconde.
E foi conduzindo o amigo at a porta da frente. Num dos longos corredores 
encontraram o cocheiro de Freddy que vinha carregando uma caixa de 
mantimentos.
- Eu estou procurando a cozinha, sir - disse ele, dirigindo-se a seu
patro. - Depois, onde quer que eu ponha o vinho?
- A cozinha  no fim deste corredor - respondeu Freddy - i pode deixar 
que eu e o visconde cuidamos do vinho.
- Pois no, sir.
Jemima preparou o almoo usando muitas das coisas que Freddy tro xera e 
comeram os trs juntos. Ao terminar a refeio, o visconde riu to
contente, que ao contempl-lo Jemima acabou concordando que a visita de
Freddy tinha sido uma boa coisa. H muito tempo que no se divertiam
tanto.
Logo que chegaram ali, ela havia ficado preocupada e aflita, para no
dizer horrorizada, ao constatar o quanto precisava ser feito para tornar
aquela casa habitvel. Entretanto, no queria que o visconde percebesse o
que estava sentindo, estava decidida a no demonstrar o menor desnimo.
Por isso, mantivera sempre um tom de brincadeira, caoando dele quando se 
enroscava numa teia de aranha e rindo quando ele dizia que era tarefa 
para um Hrcules, limpar a poeira dos sculos.
Na primeira noite, praticamente acamparam nos quartos cheirando a p e 
mofo.
Logo Hawkins descobriu que os colonos estavam dispostos a ajudar por 
alguns poucos tostes por dia e embora fossem quase todos bem velhos, e 
no trabalhassem muito, qualquer ajuda era bem-vinda.
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Jemima foi ficando fascinada com a beleza do antigo mosteiro, de grossas
paredes isolando todos os rumores, criando um clima de paz e
tranquilidade; o belo refeitrio que resistira ao tempo e aos altos e
aixos da histria.
Nos primeiros dias, ela sentia-se exausta quando ia se deitar e mal 
percebiam os resultados do trabalho. Aos poucos, porm, as condies 
foram melhorando e o fato de ela ver as melhorias e as transformaes que 
havia conseguido servia de estmulo para querer melhorar ainda mais.
Quanto a alimentao, que era importante, j que estavam gastando tantas 
energias, descobriu, aliviada, que no precisavam gastar tanto dinheiro 
quanto imaginara com comidas.
Valient caava todos os dias coelhos e patos e, alm disso, os colonos 
cultivavam hortas nos quintais e quando viram o visconde instalado na 
casa, faziam questo de oferecer a Jemima verduras e legumes e ficavam 
ofendidos se ela quisesse pagar. Entretanto, a manteiga e ovos ela 
comprava deles e fazia questo de pagar, pois sabia que se eles estavam 
se mostrando generosos, era porque s estavam esperando o momento de 
pedir que o visconde fizesse restauraes em suas velhas casas que 
estavam bem necessitadas.
Jemima vrias vezes ficava imaginando como aquela propriedade devia ter 
sido bonita, na poca em que Valient era criana e em que havia dinheiro 
para manter tudo funcionando perfeitamente e para pagar vrios 
empregados, para os mais diversos servios que a propriedade requisitava.
- Ah, estamos precisando de no mnimo uns seis empregados entre cocheiro, 
jardineiro e ajudante-de-caa, como no tempo de meu av! queixou-se o 
visconde, um dia, ao voltar do bosque.
- Pois eu preferia ter seis empregadas domsticas! - retrucou Jemima.
- No sei para qu! - disse ele, em tom zombeteiro. - A casa j est 
limpa, quase to impecvel como era antes! Eu, sim,  que preciso de 
cocheiros, jardineiros... e de uns doze cavalos, para atrelar no coche e 
poder percorrer a propriedade dando minhas ordens!
85
Jemima jogou nele o pano de p que tinha nas mos que ele pegou no ar e
jogou de volta para ela.
- Pare de me atrapalhar! - disse ela, rindo. - Se voc est sem nada para 
fazer,  melhor ver se pesca umas trutas para o jantar, assim a gente 
varia um pouco. Voc j deve estar enjoado de comer carne.
- No do jeito como voc faz! - retrucou o visconde. - Sabe de uma coisa? 
Estou pensando que devemos oferecer um jantar aqui, qualquer dia 
desses...
Ele falara de brincadeira.
- Se voc se atrever a convidar algum para vir aqui, antes que eu tenha 
transformado isso num lugar decente, eu vou embora! Voc no imagina o 
quanto ainda falta fazer!
O visconde riu e depois que ele se foi, Jemima ficou pensando, 
desesperada, que sem dinheiro e sem ajuda jamais conseguiria restaurar 
totalmente o casaro.
Em todos os aposentos havia pelo menos uma ou duas vidraas quebradas,
em alguns o assoalho estava carcomido e o teto cedera e estava caindo.
Nos trs primeiros dias no conseguiram esquentar a gua e tomaram banho 
frio no lago.
Por isso, naquele momento, depois da refeio, vendo Freddy eo visconde
rirem animados, Jemima sentiu que tinha valido a pena todc o esforo e
afinal no fora to difcil assim! Embora a preocupao com o futuro
estivesse sempre presente, estavam vencendo, por enquanto, mas e dali em 
diante?
Se ela j estava decidida a no aceitar mais emprstimos de Freddy, desde 
que haviam partido para o mosteiro, agora ento que ele tinha dito que a 
amava ela achava que seria ignbil aceitar dinheiro dele.
Ao mesmo tempo, a conversa com Freddy tinha aquecido seu corao e lhe 
dado um novo alento. Ela no mentira ao dizer que amava o visconde. Isso 
era algo que tinha percebido desde que se casara com ele.
Bastava olhar para ele, com aquele rosto bonito e o corpo atltico, para 
que sentisse o corao palpitar. Mas conhecia bem sua posio, por isso 
no demonstrava nada e contentava-se com pouco. S de poder falar com ele 
e cuidar dele, j se sentia feliz.
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Imagine s se depois de ter amado algum to linda quanto Niobe ele ia 
prestar ateno nela! No, no tinha a menor esperana.
Ela apenas era til a ele. Preparava boas refeies, cuidava das roupas 
dele e acima de tudo tinha servido como instrumento de vingana para 
fazer sofrer a mulher que o iludira e humilhara.
Jemima repetia para si mesma que seria muita ambio sonhar com mais do 
que tinha no momento, mas no podia deixar de se perguntar, tambm, se 
ficaria satisfeita com isso para sempre.
Ficou algum tempo olhando o visconde ir com Freddy at o estbulo para 
examinarem os cavalos que estavam l, depois deu um suspiro e comeou a 
arrumar a cozinha.
- Eu fao isso para a senhora, milady, pode deixar - disse Hawkins, 
surgindo na porta.
- Mas voc ainda nem almoou! V comer primeiro. O sr. Hinlip trouxe um 
presunto delicioso.
- Eu sabia que ele no viria de mos vazias!
- Ele tem sido muito generoso... e mandou o cocheiro dele hospedar-se no 
Green Man para no nos dar trabalho!
- Eu ouvi, milady.
- Mais tarde vamos preparar o quarto pegado ao do visconde para ele. 
Ontem a sra. Benson lavou tudo e hoje voc v se consegue que os outros
ajudem, tambm, para deixar o quarto o melhor possvel.
- Eu farei isso, milady. E a sra. Groves disse que prefere lavar a loua, 
assim no precisa se movimentar muito.
- Ento vamos deixar que ela faa isso - sorriu Jemima.
Ela saiu da cozinha e resolveu ir ao estbulo reunir-se aos homens. Antes 
do almoo, havia tomado banho e trocado de roupa, estava com um dos 
vestidos caros comprados em Londres e ficou pensando se no poderia 
estrag-lo, se no seria melhor colocar outra vez o vestido velho que 
estava usando quando Freddy chegou. Mas acabou concluindo que no queria 
mais que ele a visse desarrumada. S que com aquela roupa no podia mais 
fazer nenhum servio domstico.
Ajeitou os cabelos diante do espelho e saiu para o ptio. L fora, achou 
que seria falta de tato interromper a conversa dos amigos e em vez de ir 
para a cocheira onde eles estavam, ficou andando pelas imediaes
87
e resolveu inspecionar a ala oeste da casa, uma parte do mosteiro
que ainda no tivera tempo de cuidar. 
Naturalmente estava tudo sujo e empoeirado l dentro, e ela ergueu
o vestido um pouco para que no encostasse no cho. Ia olhando as
coisas com interesse, descobrindo mveis e peas que com boa limpeza
ficariam bem melhores do que os que estavam usando na ala principal.
Jemima tinha decidido, logo de incio, que a coisa mais sensata era
arrumar bem a sala de visitas e a biblioteca e esquecer o resto da casa.
O mosteiro era to grande que desde que chegara ela ainda no
conseguira ver tudo, explorar todos os aposentos. Tambm no tivera
tempo. As medidas de primeira necessidade tinham sido limpar os
quartos, a sala, e a cozinha.
Agora, com mais tempo, pretendia comear a mudar algumas coisas e depois, 
ento, se o visconde quisesse, poderiam convidar os vizinhos.
J haviam examinado uma boa parte daquela ala e achou que podia ir ao 
encontro do marido e do amigo. Abriu a porta, pensando que desse para 
fora, mas para sua surpresa viu-se num lugar muito estranho e havia uma 
mulher ali.
A mulher estava contra a luz, por isso Jemima no pde ver logo o rosto
dela, mas assim que a viu a mulher virou-se para ela e fez uma mesura.
- A senhora deve ser a nova viscondessa Oclcley, no ? - disse ela, com 
voz nervosa, mas com palavra e pronncia bem distintas e corretas. -
Espero que me desculpe por eu estar aqui sem ter ido falar com a senhora,
mas eu pedi para seu empregado cham-la e ele disse que o lorde ainda no
estava recebendo ningum aqui.
Jemima percebeu que ela estava ansiosa e aflita para explicar sua 
presena, desculpando-se, e sorriu para ela, estendendo-lhe a mo.
-  que temos andado muito ocupados desde que chegamos, pondo as coisas
em ordem - disse Jemima. - No vai me dizer seu nome?
-  claro, milady, eu j devia ter dito! Eu sou a sra. Ludlow e meu
marido  o pastor da igreja, o vigrio.
- Prazer em conhec-la, sra. Ludlow.
Ela era uma mulher de meia-idade com um rosto simptico e afvel e 
cabelos grisalhos. Usava um vestido simples, sem adornos, e Jemima
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percebeu que ela estava segurando um enorme pote e que havia outro no
cho. A sra. Ludlow seguiu o olhar dela.
- Talvez tenha feito mal, milady, em no ter pedido a permisso 
senhora, mas eu vim buscar gua.  que... tinha certeza de que tnilorde
no iria recusar.
- Buscar gua - admirou-se Jemima.
- , milady. Tem muita gente na aldeia que no passa sem ela e sempre que 
tenho uma folga na parquia eu venho buscar gua para eles.
- Mas, que gua, senhora Ludlow? No estou entendendo.
- Aquela ali, milady.
Ela apontou para o centro daquele estranho aposento coberto de sap, com 
as janelas quase todas quebradas e Jemima viu que havia um pequeno tanque 
circular construdo em pedras agora cobertas de musgo e meio encoberto 
por ervas daninhas que haviam invadido o local abandonado.
Ficou olhando, por instantes, sem entender o que a mulher do proco 
queria dizer e ento percebeu um fio d'gua brotando de entre as ervas e 
acumulando-se no tanque.
- Mas por que a senhora quer esta gua? Naturalmente, deve haver gua na 
aldeia, no ? - perguntou Jemima.
- Quer dizer que a senhora nunca ouviu falar da gua do Mosteiro Ockley? 
Ento, ser que milorde...
- Ele nunca me disse nada sobre gua nenhuma.
- Essa no  uma gua comum, milady.  uma gua milagrosa... e as pessoas 
da aldeia tm tanta f que no passam sem ela.
- Explique-me melhor, conte-me essa histria direito, por favor.
- Bem,  uma lenda, naturalmente... mas dizem que os monges que 
construram este mosteiro, escolheram este lugar porque o abade superior 
da ordem teve uma viso... Nosso Senhor apareceu para ele e disse que a 
misso dele era curar os doentes e que se construsse o mosteiro aqui ele 
encontraria o meio para cur-los...
- que seria esta gua?
- , milady. Depois, a lenda ficou esquecida por algum tempo, talvez 
porque o outro visconde Ockley no deixasse os aldees usarem a fonte...
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Jemima sorriu.
- E agora eles pedem para a senhora vir buscar.
- Pois ... a senhora ver que todos os seus colonos tambm bebem a gua 
da fonte. Na verdade, todos aqui da regio conhecem a fonte e os 
benefcios dessa gua.
- E quais so os benefcios?
- Todos acreditam que a gua os mantm jovens e ativos, e na verdade ela 
acaba com dores mesmo. Eu prpria tive a experincia. Vivia me queixando 
de dores e no inverno passado estava quase imobilizada pelo reumatismo, 
at que meu marido perguntou por que eu no experimentava beber a gua 
tambm, j que vinha buscar para todos.
- Da a senhora bebeu... e o que houve?
- Confesso que no estava acreditando muito, mas comecei a tomar. Depois 
de duas semanas, a dor comeou a diminuir e acabou sumindo. Minhas pernas 
ficaram boas de novo e eu j no tinha mais dificuldade para subir
escadas.
- Ento,  essa a histria! - Jemima sorriu e viu que a gua se acumulara 
no pequeno tanque. - E a fonte nunca seca?
- No, nunca secou, at hoje. S est correndo muito lentamente porque 
acho que essas ervas esto obstruindo a gua. Talvez seja preciso 
arranc-las.
- Preciso dizer isso a meu marido... Por favor, sirva-se  vontade. 
Talvez possamos conversar melhor um outro dia.
-  claro, com todo prazer, milady. Ficaria muito honrada. Espero que 
milorde no ache atrevimento meu ter vindo buscar gua sem pedir a 
permisso dele.
- Ele vai gostar de saber que a gua  to til - retrucou Jemima, 
sorrindo.
Despediu-se e saiu apressada em direo  cocheira. Passou por entre 
algumas rvores e descobriu que o visconde e Freddy estavam na cerca do 
pasto, olhando os cavalos soltos ali.
- Eu os batizei de Rmulo e Remo - dizia o visconde, quando Jemima se 
aproximou. - Lembra-se da lenda das duas crianas que foram adotadas por 
uma loba e que depois fundaram Roma? Pois ,
90
L
acho que para domar esses dois cavalos vou ter que ser mais forte que
um lobo!
Jemima andara to depressa, que estava quase sem flego quando parou ao 
lado do visconde.
- Valient! - exclamou ela, ofegante. - Adivinhe o que acabei de 
descobrir?
- Se  outro teto despencado, no quero nem ouvir falar agora respondeu 
ele.
- No, no  nada disso!  a gua... a fonte milagrosa do mosteiro!
O visconde fitou-a surpreso e por um instante pareceu no estar 
entendendo. Depois exclamou:
- Ah, j sei de que est falando! H uma fonte no fim da ala oeste que 
dizem ter poderes milagrosos. Eu me lembro que meu av contava essa 
histria, mas  claro que  tudo lenda!
- No  o que pensa o povo da aldeia, e a mulher do pastor disse que ela
curou o reumatismo com essa gua.
- Bem, eu prefiro beber o champanhe que Freddy nos trouxe -, zombou o 
visconde - mas gosto  gosto e no se discute!
- No  brincadeira, Valient. Isso  uma grande descoberta! Na verdade... 
acho que descobrimos o que estvamos procurando.
Ela falou com tanta seriedade que os dois homens olharam para ela
admirados.
- De que est falando? - perguntou Freddy. - Eu no sabia que Valient 
tinha uma fonte milagrosa... mas, afinal, acho que isso era de
se esperar num mosteiro, no ?
- Vocs dois no esto me levando a srio! Ouam o que eu tenho a dizer. 
A sra. Ludlow disse que todos na aldeia acreditam nos poderes; da fonte
e ela vem uma ou duas vezes por semana buscar gua para
eles. Os colonos tambm bebem a gua... e voc j reparou como so
saudveis e fortes apesar de serem idosos? - O visconde olhava para ela, 
atordoado, sem entender aquele entusiasmo, mas ela continuou. - Voc deve
saber que estaes de guas minerais so bastante populares, no ? As
guas quentes de Bath so muito famosas e as de Beaulah em Dulwich 
tambm... sem falar nas Termas de Sadlers! - Fez uma
91
pausa para tomar flego e continuou: - Eu me lembro que papai e mame
foram uma vez, h alguns anos,  Islington e disseram que as guas eram
boas para gota, artrite e tambm para insnia. Houve um breve silncio,
depois o visconde disse, incrdulo:
- Ser que entendi mal ou voc est mesmo sugerindo que faamos um
balnerio aqui?
- Por que no? Basta que uma pessoa seja curada e centenas de outras vo
querer experimentar e estaro dispostas a pagar qualquer preo,
principalmente se alm de curadas acharem que vo rejuvenescer.
O visconde a fitava, atnito, de olhos arregalados.
- Meu Deus! - disse Freddy. - Acho que Jemima teve uma tima ideia! E a 
primeira pessoa que vai querer experimentar ser mame que sofre de 
reumatismo h anos, e depois papai que est ficando cada vez mais mal-
humorado por causa da gota.
- Voc acha mesmo que eles gostariam de experimentar a gua, para depois 
nos dizer sinceramente se houve ou no melhora? - perguntou Jemima.
-  claro que sim,  s eu pedir a eles. Eles j tentaram tantos remdios 
sem nenhum resultado!
Jemima cruzou as mos.
- Suponhamos que seja mesmo verdade o que a mulher do pastor falou... que 
haja mesmo cura... quanto acha que deveramos cobrar pela gua Ockley?
- O mximo que pudermos conseguir! - respondeu o visconde. Depois, ele e 
Jemima se entreolharam e sorriram, lembrando-se de
que ela dissera essas mesmas palavras em relao ao sr. Roseburg.
- Venham dar uma olhada! - disse ela, eufrica. - Acho que vamos ter que
limpar a fonte para que a gua saia mais depressa, dar um jeito naquele
lugar... Parece uma capela! J pensaram que maravilha se pudermos ganhar
dinheiro e ao mesmo tempo curar pessoas e proporcionar alvio a seus 
sofrimentos?
- Eu acho isso tudo uma loucura! - disse o visconde -, mas estou disposto 
a tentar qualquer coisa.
Os dois seguiram Jemima que ia na frente to depressa que eles precisaram 
se esforar para acompanh-la.
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- Sem dvida, vai ser uma experincia bastante nova para voc, ganhar 
dinheiro em vez de gast-lo, Valient - caoou Freddy.
- , e voc vai me ajudar - respondeu o visconde. - Acho que vou colocar 
voc na porta, cobrando entrada. Que tal? Ser que devemos fazer um 
uniforme para ele, Jemima?
Jemima j estava to na frente que nem ouviu a brincadeira.
- Vou lhe dizer uma coisa - falou o visconde, com ar srio. Se no tiver 
certeza de que esse  um bom modo de ganhar bastante dinheiro, no vou 
investir um centavo nem vou perder meu tempo com isso.
- Est sendo sensato, Valient. Mas no desencoraje Jemima, ela est to 
animada! Voc h de convir, Valient, que nenhuma outra mulher que voc 
conhece teria feito tanto por voc, e agido com tanta
esperteza, quanto ela! Jemima no se queixa de nada, resolve tudo
facilmente e est sempre de bom humor!
O visconde olhou para o amigo, surpreso com o modo dele falar, depois 
disse:
-  claro! Voc tem razo! Eu reconheo e sou muito grato a Jemima. Ela 
tem trabalhado como no sei o qu!
- Voc pode imaginar Niobe na mesma situao? - perguntou Freddy de
repente.
Houve um silncio, depois quando j se aproximavam da porta que levava
 fonte o visconde disse:
- Mas  claro que com Niobe no existiria essa situao, ou no ? Freddy 
no encontrou resposta, mas gostaria de ter conseguido dizer
algo, ou mesmo fazer algo, para que Valient percebesse que Jemima era 
indubitavelmente uma pessoa extraordinria, uma mulher fora do comum.
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CAPTULO VI

Jemima entrou correndo na sala onde o visconde estava em p ao lado da 
mesa contando umas moedas de ouro.
- Fizemos mais vinte libras! - exclamou ela, eufrica, agitando no ar uma
bolsinha de couro. - Chegou um coche cheio de gente, bem na hora que
Freddy e eu j amos fechar. O visconde contemplou-a admirado.
- Sabe o que isso significa? - disse ele. - Que j fizemos quase noventa
libras hoje! - Ele ergueu Jemima no ar como se ela fosse uma criana e  
rodou com ela pela sala. - Noventa libras! Ah, Jemima, voc  a mulher
mais inteligente do mundo!
Depois, parou de rodar e beijou-a nas duas faces, antes de coloc-la no 
cho e em seguida beijou-a nos lbios.
Foi um beijo leve e rpido, sem nenhuma sensualidade, mas Jemima sentiu 
um arrebatamento que nunca sentira antes. Um arrepio percorreu-a da 
cabea aos ps e ela se sentiu desfalecer.
O visconde soltou-a, pegou a bolsinha de dinheiro e espalhou as moedas na 
mesa para cont-las.
- Oitenta e oito libras e cinco xelins... - disse ele, com ar sonhador. - 
Ser mesmo possvel?
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- E voc no deve esquecer... que este ... o primeiro dia. Jemima 
tentava falar com naturalidade, mas sua voz soava estranha
e ela sabia que era porque ainda estava ofegante e sentindo o corpo todo 
vibrar, desde que o visconde a beijara.
- Se vieram uma vez, com certeza vo voltar - disse ele -, ainda mais se 
a gua faz to bem assim como lady Hinlip disse!
- A me de Freddy foi maravilhosa! E nem temos como agradec-la. Freddy 
disse que ela escreveu dezenas de cartas para todos os seus conhecidos no 
condado e alm disso o jornal publicou o que estamos fazendo... isso 
ainda vai atrair muito mais gente.
- Ainda no posso acreditar! - disse o visconde, maravilhado. Mas Jemima 
no achava assim to surpreendente aquele sucesso. Ela,
o visconde e Hawkins tinham trabalhado bastante para restaurar o que ela 
chamava de "capela". Desde a manh at tarde da noite, quase sem parar. E 
Valient no parava de falar que o que suportara no exrcito tinha sido 
brincadeira perto do que Jemima o obrigava a fazer.
Primeiro arrancaram todas as ervas daninhas que obstruam o curso da gua 
e ento perceberam que quando o tanque se enchia, a gua saa por 
aberturas, de modo que nunca transbordava. Depois limparam as pedras do 
tanque e da fonte, tirando todo o musgo; conseguiram que um dos colonos 
recolocasse os vidros nas janelas da "capela" e restaurasse as paredes 
cujo reboco estava caindo em vrios lugares.
- Eu acho melhor tirar tudo de uma vez - disse Jemima -, e deixar a pedra
nua como deve ter sido no incio, quando os monges construram isso aqui. 
Fica muito mais bonito. Est tudo saindo mesmo, olhe s...
Ela puxou um pedao grande de reboco e fez uma exclamao.
- O que foi? - perguntou Freddy, erguendo os olhos do que estava fazendo.
- Venham aqui, depressa! - disse Jemima, excitada. - Acho que encontrei 
alguma coisa!
De fato, ela havia descoberto uns murais antigos que deviam ter sido 
pintados h vrios sculos e que, sem dvida, tinham sido tapados com 
argamassa pelos Puritanos.
Demoraram vrios dias para remover o reboco sem danificar os murais.
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Foi um trabalho difcil, mas quando terminaram havia mais trs
maravilhosos desenhos primitivos representando santos cercados de aves e
pequenos animais.
As cores estavam um pouco desbotadas, mas os tons empalidecidos pareciam
em perfeita harmonia com o clima de paz que circundava a fonte. Assim, a
capela voltou a ser como tinha sido feita originalmente. O visconde achou
umas peas de madeira entalhada, no sto, que formavam uma belssima 
mesa, depois procuraram mais at que encontraram umas cadeiras de 
carvalho que combinavam.
Tudo isso levara tempo mas estavam animados com a descoberta e ficaram 
ainda mais entusiasmados quando lady Hinlip mandou um relatrio com os 
efeitos benficos da gua que Freddy levara para ela experimentar.
Ela escreveu dizendo que seu reumatismo tinha melhorado sensivelmente e 
que estava se movimentando com muito mais facilidade. Alm disso, a gota 
de lorde Hinlip parara de incomodar e a inflamao do p estava cedendo.
- Voc ainda acha que  s lenda mesmo? - perguntou Jemima ao visconde, 
depois de lerem.
- Est bem, retiro o que disse e j que estou com dor nas costas de tanto 
que voc me fez trabalhar, vou beber um pouco da gua, embora continue 
preferindo o champanhe de Freddy.
- Por falar nisso, eu lhe trouxe mais duas caixas - disse Freddy.
- Voc  generoso demais conosco - disse Jemima.
Ele a fitou com uma expresso que a fez compreender por que ele preferira 
ficar l, apesar de todo o desconforto, e no voltar para Londres. 
Contudo, ela estava contente por ele ter ficado. Freddy mantinha o 
visconde bem-humorado e os trs juntos se divertiam e riam muito, apesar 
de todo o trabalho que havia para ser feito.
com toda essa atividade, Valient nem tinha tempo para domar os cavalos 
selvagens, nem para montar os cavalos de Freddy que agora ocupavam o 
estbulo em runas.
- A primeira coisa que teremos que fazer quando comear a entrar o 
dinheiro - disse o visconde -,  arrumar o telhado.
- A  que voc se engana - retrucou Jemima, com firmeza. 96
Antes de gastarmos qualquer centavo conosco, temos de pagar as dvidas. - 
Ela viu uma expresso de rebeldia no rosto do visconde, mas antes que ele 
dissesse qualquer coisa continuou: - No comeo, est certo que fiquemos 
com a metade, pelo menos, para podermos viver. Agora, depois que 
saldarmos a dvida, teremos que fazer muita coisa aqui, no s no 
estbulo mas principalmente na casa.
- Voc acha mesmo que essa ideia maluca vai render o suficiente para 
fazermos tudo isso? - perguntou, indeciso.
- Eu aposto como a descoberta de Jemima  uma mina de ouro! Freddy 
comentou.
- Espero que voc tenha razo - disse Jemima -, mas de qualquer forma 
acho que vale a pena tentar.
Mas o visconde ficou impressionado com a carta da me de Freddy. Na 
verdade, como lady Hinlip conhecia vrios balnerios, foi ela quem 
sugeriu o preo que deveriam cobrar e explicou que iriam precisar de 
vasilhas e garrafas para que as pessoas transportassem a gua.
Ficaram sabendo que o balnerio de Beaulah, como vrios outros, cobrava 
trs guinus por uma inscrio de um ano para uma famlia, ou ento um 
guinu e meio por pessoa. Alm disso, era possvel comprar gua a dois 
xelins por galo ou garrafas pequenas de um xelin cada.
Jemima decidiu que os primeiros bilhetes de entrada que mandariam 
imprimir, seriam distribudos gratuitamente para os colonos e todos que 
viviam na propriedade do visconde, alm da sra. Ludlow,  claro.
Freddy foi a Londres para descobrir onde se comprava todo esse material e 
na volta limparam a alameda que ia at a fonte, arrancando razes, e 
cobriram o caminho com cascalho para que no ficasse enlameado quando 
chovesse. Era um trabalho pesado, mas s depois disso poderiam abrir ao 
pblico.
- Era melhor chamar um operrio para fazer esse servio! - disse o 
visconde, empurrando um carrinho de mo e suando sob o sol de vero.
- E com o que iramos pag-lo? - respondeu Jemima.
Quase que instintivamente o visconde olhou para onde estava Freddy, 
transportando um carrinho de mo, cheio de cascalho.
- No! - falou Jemima com firmeza antes que ele dissesse qualquer coisa. 
- Voc j deve muito a ele, Valient.
97
- Freddy no se importa com isso.
- No se trata disso. Essa  a sua fonte, sua casa, sua propriedade e, se 
preferir... seu reino!
Ela disse isso com nfase e fitou o marido com um olhar revelador que ele 
no viu, pois estava olhando para as mos machucadas.
- S lhe digo uma coisa: se no aparecer ningum para beber essa bendita 
gua, depois de toda essa trabalheira, eu jogo voc no lago, Jemima!
- Infelizmente, para voc, eu sei nadar! - retrucou ela, rindo.
Ela percebeu que Valent estava irritado e se afastou rezando baixinho, 
como fazia sempre, para que tudo desse certo e que o balnerio fosse um 
sucesso.
Naquele momento, olhando as moedas que o visconde contara e empilhara 
sobre a mesa, Jemima sabia que o sucesso tinha superado todas as 
expectativas. Ela era esperta o bastante para saber que no fora s a 
fonte e a carta de lady Hinlip que atrara tanta gente, mas tambm a 
curiosidade que muitos tinham de conhecer o visconde e ela. O fato era 
que tinham chegado s dezenas, em carruagens e coches s para beber um 
copo d'gua que Jemima, usando um de seus mais belos vestidos, lhes 
entregava com um sorriso.
O visconde os cumprimentava, um a um, cordial e afvel, extremamente 
elegante.
- Nossa, minhas roupas esto ficando apertadas - comentou Freddy, em dado 
momento. - Deve ser essa comida deliciosa que voc faz para ns, Jemima.
- , mas quem traz a maior parte  voc! - sorriu ela.
- S para lhe poupar trabalho. Detesto ver voc trabalhando tanto assim!
Ele era to atencioso e preocupado com esse aspecto que Jemima no pde 
deixar de imaginar se o visconde alguma vez achara que ela trabalhava 
demais e que era muito esforo para uma mulher, principalmente uma to 
pequena como ela era.
Ela preparava quatro refeies por dia: caf da manh, almoo, lanche e 
jantar, para dois homens cujo apetite aumentava cada vez mais. Cuidava 
das flores, enfeitava a casa, remendava lenis e fronhas.
98
s vezes estava to cansada que adormecia, mal encostava a cabea no 
travesseiro, mas s vezes ficava acordada na cama, imaginando se o 
visconde, no quarto ao lado, ainda estaria pensando em Niobe com amor. 
porque Jemima tinha certeza de que ela prpria nunca estava presente nos 
pensamentos e sonhos do visconde.
Ele a tratava bem, era atencioso, fazia o que ela lhe pedia, elogiava sua 
comida, mas Jemima tinha certeza de que nem por um momento lhe ocorria 
que ela era sua esposa no verdadeiro sentido da palavra, ou mesmo que ele 
pudesse ach-la uma mulher atraente como Freddy achava.
Costumava, ento, abraar o travesseiro, repetindo para si o quanto o 
amava e se recriminava por desejar mais do que tinha. Devia se contentar 
apenas em v-lo todos os dias e cuidar dele!
s vezes, sentia que a me estava guiando seus passos de longe e tinha 
quase certeza que fora ela que a fizera entrar na capela da fonte, na 
hora em que a sra. Ludlow estava l.
Se a mulher do pastor no estivesse l, ela teria passado por ali e 
seguido para a cocheira sem nem reparar na fonte escondida entre as 
plantas.
Olhando o dinheiro sobre a mesa, ela falou:
- Algum vai ter que ir a Londres amanh, para buscar mais garrafas. Ns 
compramos bastante, mas depois da multido que veio hoje o estoque ficou 
desfalcado.
- , foi um movimento incrvel! - disse o visconde.
- Sabe, acho que tive outra ideia.
- O que foi, agora?
- Uma das senhoras... acho que foi uma que voc chamou de Betty, 
perguntou-me se a alfazema daqui ainda era to boa quanto costumava 
ser...
- Ah, aquela  lady Cunningham - explicou o visconde. - Eu a conheo 
desde criana, agora ela  casada e mora com o marido a alguns 
quilmetros daqui.  nossa vizinha, portanto.
- Por que ela falou da alfazema?
-  que a de nossas terras foi sempre conhecida por ter um perfume mais 
forte.
99
- Eu vi essa alfazema! No jardim est cheio, embora esteja murada com
mato.
-  melhor arranjarmos algum para cuidar desse jardim - disse o
visconde. - Agora j podemos pagar.
- E podemos tambm pedir  sra. Laing, que  habilidosa com essas coisas,
para fazer saquinhos de sache de alfazema... Da poderemos vend-los.
- Voc est pretendendo que eu vire dono de loja?
- Por que no? Se podemos vender gua, podemos vender outras coisas. Voc
viu, hoje, como as pessoas ficam ansiosas para comprar lembrancinhas e
outras coisas.
- , quanto a isso voc tem razo - disse ele com certa relutncia.
- mas, que eu me lembre, nunca houve um Ockley comerciante.
- E se voc estudar bem a rvore genealgica da sua famlia, duvido que
encontre outro Ockley que tenha sido pobre como voc.
-  verdade... - disse ele srio, depois mudou de tom -, mas hoje estou me
sentindo rico, graas a voc, Jemima! E se Freddy no aparecer logo para
fazermos um brinde, eu mesmo vou abrir uma garrafa de champanhe.
- Eu agradeceria muito se voc fizesse isso! - disse Freddy da porta.
- Eu cortei o dedo num prego da caixa de champanhe e est san grando!
- Ento  preciso lavar isso - disse Jemima, depressa. - Eu vou fazer um
curativo para voc.
- No  to grave assim! - protestou Freddy.
Mas Jemima j havia sado da sala. Logo voltou com uma pequena bacia com 
gua fria e uma tira de pano. Valient e Freddy j haviam enchido as 
taas.
- Um brinde a uma maravilhosa e esperta mulher de negcios, que ns 
amamos e admiramos! - disse Freddy, erguendo a taa, assim que ela
entrou.
As palavras tinham sido simples, mas Jemima achou o modo dele falar um
tanto indiscreto. Olhou apreensiva para o visconde, mas nem precisaria
ter se dado ao trabalho. Ele estava servindo-se de mais champanhe.
100
- Eu jamais poderia pensar - disse ele - que alguns copos d'gua pudessem 
dar tanto dinheiro! No estava acreditando nisso!
- Voc sempre foi ctico - retrucou Freddy.
- Mas voc h de convir que isso era um tiro no escuro e, como acabei
de dizer a Jemima, sou o primeiro Ockley a entrar no ramo do comrcio.
- E duvido que seja o ltimo - disse Freddy. - Os tempos esto mudando,
meu caro. Aquela poca em que os nobres tinham imensas fortunas j
pertence ao passado, graas  guerra.
- Ns tivemos sorte, muita sorte mesmo! - disse Jemima. - Freddy, se
voc vai a Londres amanh, conforme disse, para comprar mais garrafas,
quer fazer o favor de levar o dinheiro para Westons, o alfaiate, e dizer
para ele dividir com os outros credores?
- Voc sabe que eu fao qualquer coisa que me pedir - disse Freddy - mas 
s que acho que, como amanh  domingo e teremos muitos visitantes outra 
vez, seria melhor eu ficar aqui para ajud-la.
- Voc acha mesmo? Eu pensei que domingo fosse dia de as pessoas ficarem 
em casa descansando... - disse Jemima.
- Parece que os Tiverton, pelo menos, viro. Mame me disse que se eles 
no viessem hoje, viriam amanh.
- Ento,  claro que voc deve ficar aqui - disse Jemima - e, depois, que
besteira a minha! Como voc ia poder comprar as coisas num domingo?
- Vamos ns dois na segunda-feira - sugeriu o visconde. Jemima olhou 
alarmada para Freddy.
- Ah, isso  impossvel! - disse ele depressa.
- Por qu?
- No podemos deixar Jemima sozinha aqui.
O visconde refletiu por alguns instantes e Jemima temeu que dissesse que 
ela sabia se cuidar bem sozinha.
- , voc tem razo - disse ele, afinal. - Vai voc, ento, e se for at 
o clube conte a eles o que estamos fazendo. Eles vo se divertir com a 
histria!
- Se quiser posso colocar um aviso no quadro, dizendo que voc
101
ter prazer em receb-los aqui, j que quase todos sofrem de gota, e que dar um desconto especial para os scios.
- Voc que se atreva a fazer uma coisa dessas! - indignou-se o visconde. - E, pensando bem, talvez seja melhor no falar no assunto l.
Nesse momento Hawkins entrou com algo nas mos.
-  o The Times, Hawkins? - perguntou o visconde.
- Chegou da aldeia, hoje  tarde, milorde, mas o senhor estava muito ocupado naquela hora.
- H dias que no vejo um jornal! - exclamou Freddy. - Eu j ia perguntar quando  que voc ia providenciar uma assinatura.
- Fiz isso h uma semana - respondeu o visconde. -  que as coisas andam devagar aqui. Espero que, de agora em diante, a entrega seja regular, pelo menos!
- Tambm espero - disse Freddy. - Estamos to sem contato com o resto do mundo que at parece que estamos na lua.
- Para falar a verdade, at que  um alvio - retrucou o visconde.
- Os jornais s tm reclamaes contra o governo e queixas dos agricultores falando de suas dificuldades.
- Voc tem razo. No h nada mais montono do que isso. Os jornais s melhoram quando h alguma guerra servindo de assunto.
- Graas a Deus, no h nenhuma agora! - exclamou Jemima. Ficou horrorizada s de pensar na preocupao que teria se o visconde
e Freddy tivessem que ir lutar numa guerra, como haviam feito h trs anos.
Freddy colocou champanhe na taa dela e depois na dele. Largou a garrafa e fez um brinde silencioso, lanando a ela um olhar eloquente.
Jemima desviou o rosto depressa, sentindo-se irritada por ele proclamar seus sentimentos de maneira to aberta e insistente.
Nesse instante, o visconde, que lia o jornal, soltou uma exclamao que ecoou por toda a sala.
- Meu Deus! - disse ele. - Adivinhem o que aconteceu?
- O que foi? - perguntou Jemima.
- Porthcawl! - respondeu ele, relendo a notcia, incrdulo.
- Porthcawl? - repetiu Freddy. - O que houve com ele?
- Ele morreu!
102
- Morreu?
- Teve um ataque cardaco na Casa dos Lordes. Saiu carregado, mas morreu antes de ser colocado em sua carruagem.
- Meu Deus do cu! - disse Freddy. - Ele nunca me pareceu
muito saudvel, mesmo.
Jemima largou a taa e saiu da sala. Enquanto subia as escadas, devagar, ia pensando o que o visconde estaria sentindo. O primeiro pretendente de Niobe morrera e 
o segundo da lista, o visconde, poderia ser escolhido agora, se j no estivesse. . . casado.
Tal como Freddy previra, o balnerio ficou lotado no dia seguinte. As pessoas pareciam encantadas por terem descoberto uma nova distrao para o domingo.
Vinha gente de todas as partes do condado. Chegavam em coches, carruagens e tlburis e da aldeia vinham os fazendeiros, de carroas, com as famlias, vestindo as 
melhores roupas. Todos tinham recebido bilhetes grtis.
A maioria trazia pessoas de idade que j estavam com as mos deformadas pelo reumatismo e que caminhavam com dificuldade devido  artrite. Era animador ouvir o testemunho 
dos aldees que j usavam a gua h algum tempo.
- Eu no saa da cama h dois anos, milady - disse uma mulher idosa a Jemima que lhe servia a gua. - Mas agora, embora ainda sinta um pouco de dores, eu j posso 
ser til de novo, ajudando minha filha a lavar loua.
- E a senhora acha que isso  devido  gua?
- Posso jurar para a senhora que sim, milady! Essa gua  uma bno dos cus!
- Realmente! - concordou Jemima.
Havia vrias pessoas que, tendo vindo de longe e conhecendo o visconde desde que ele era criana, queriam entrar na casa.
Apesar de Jemima ter dito a Valient que ainda no estavam em condies de receber visitas, inevitavelmente as pessoas acabavam sendo levadas para a sala.
Jemima sentiu-se constrangida e sem jeito achando que estavam
103
reparando nas cortinas desbotadas, nos tapetes e estofamentos. desgastado 
Mas, afinal, no conjunto, a sala estava bonita e bem arrumada. As madeiras
tinham sido polidas, as porcelanas lavadas e tudo estava limpo e parecia
combinar com a construo antiga do Mosteiro.
- Eu fui muito amiga da me de seu marido - disse uma senhora para Jemima
- e estou to contente que vocs dois tenham vindo morar aqui no
Mosteiro! Espero que possamos nos tornar amigas tambm!
- Obrigada pela gentileza, eu ficaria muito feliz e honrada com isso.
- Voc  exatamente o tipo de esposa que eu sempre desejei que i Valient 
escolhesse - continuou ela. - Eu temia que ele se deixasse encantar por 
uma dessas moas elegantes e esnobes de Londres, que detestam o campo e
s pensam em vestidos bonitos e na prpria aparncia. - Ela examinou a
sala, de relance, e sorriu para Jemima. - Estou vendo que voc
transformou isso num ambiente bastante acolhedor, um verdadeiro lar! E
 justamente disso que Valient precisa, agora que a guerra acabou. E
aqui tem espao para uma famlia de, no mnimo, umas doze crianas.
Jemima corou sem querer e a outra deu risada.
- Ora, no precisa ficar embaraada, minha querida. vou dizer
a Valient que ele  mesmo um homem de sorte por ter casado com voc,
assim que terminarem a lua-de-mel quero que venham me visitar. E
S depois que ela se foi  que Jemima ficou sabendo que estivera
conversando com a duquesa de Newbury, uma das figuras mais importantes
e influentes na vida do condado.
Na segunda-feira, quando tudo parecia mais calmo, Freddy foi a Londres.
Embora houvesse visitantes, eles chegavam aos poucos e com grandes
intervalos entre uns e outros. Jemima se apavorou e ficou imaginando se a
novidade do balnerio no tinha sido apenas um entusiasmo passageiro, que
seria esquecido logo. Teve medo de que a fonte de renda secasse.
No dia seguinte, aconteceu a mesma coisa, o movimento foi pequeno. S
s duas horas da tarde, mais ou menos, chegaram dois coches vindos
de longe, cheios de turistas. Estavam todos muito alegres e sem dvida
104
deviam ter bebido durante a viagem. Todos fizeram inscrio para um
kO,
embora Jemima no acreditasse que eles fossem voltar, e compraram uma
dzia de garrafes com gua e duas dzias de garrafas, antes de irem
embora.
O visconde tinha se aborrecido de ficar sem fazer nada, esperando
visitantes, por isso tinha deixado Jemima sozinha.
Ela recebeu toda aquela gente, sem ajuda, pois no havia o menor sinal do
marido por ali. Os homens a elogiavam com eloquncia e ela sabia que se 
tivesse dado a menor confiana muitos teriam flertado e tomado atitudes 
mais ousadas.
S Hawkins estava l com ela, ajudando-a a impor respeito. Depois de
muita brincadeira e algazarra eles se foram, afinal, e o lugar pareceu 
mais silencioso do que nunca.
- Por que a senhora no vai descansar um pouco, milady? - sugeriu 
Hawkins. - Eu fico aqui atendendo as pessoas e se por acaso chegar um 
grupo muito grande eu vou chamar a senhora.
- vou me sentir como se estivesse abandonando meu posto... respondeu 
Jemima. - Mas se voc promete que vai me chamar...
- Eu prometo, milady. No comeo da semana o movimento  sempre pequeno, 
mesmo. S comea a aumentar no fim.
- Como  que sabe disso?
- Eu conversei com um dos cocheiros de lorde Hinlip e ele me disse, 
milady. Ele j levou os patres a uma poro de balnerios e sabe. Alis, 
ele falou que muitos so uma fraude. Se aproveitam para ganhar dinheiro 
no incio, antes que as pessoas descubram que a gua no tem nada de 
especial.
- Ah, Hawkins, mas o nosso no  assim!
-  claro que no, milady! A senhora ouviu a opinio de lady Hinlip! E 
acho que no pode haver melhor recomendao do que essa.
- Tambm acho.
- Sabe, milady, eu estava pensando se no seria bom a senhora escrever 
essas coisas que as pessoas falam sobre a gua... e depois, quem sabe, o 
visconde poderia escrever tambm uma pequena histria do Mosteiro, da a 
senhora mandava imprimir tudo junto... eu aposto como teria muita gente 
que compraria!
105
Jemima contemplou-o, em silncio, por um breve instante, depois bateu
palmas.
- Hawkins, voc  um gnio!  claro que devemos fazer isso! como  que no
pensei nisso antes?
- Eu tive essa ideia, milady, quando estava conversando com a sra Burns. 
Ela elogiou tanto essa gua! Vive dizendo o quanto fez bem para ela.
- Amanh cedo ela vem trabalhar em casa e eu vou faz-la repetir para mim 
exatamente o que ela disse para voc. Depois, falarei com os outros e,  
claro, com a sra. Ludlow. Ela pode me dizer com quem falar no povoado. - 
Ela fez uma exclamao de euforia e seus olhos brilharam quando disse: - 
Preciso ir contar essa novidade a Valient!
Ergueu um pouco a frente do vestido e ps-se a correr em direao  casa, 
ansiosa para contar ao marido. Estava com tanta pressa que correu at 
chegar no saguo de entrada. S ento largou o vestido e andou mais 
devagar at a sala de visitas. Diante da porta fechada, parou, e enquanto 
ajeitava os cabelos ouviu vozes l dentro.
Ficou imaginando quem estaria l conversando com o visconde e ao ver pela 
janela uma carruagem fechada, parada l fora, achou que era algum vizinho 
fazendo visita. J ia entrar na sala, quando algo na carruagem lhe chamou 
a ateno. Parecia conhecida... Olhou de novo e sentiu um frio na boca do 
estmago ao reconhecer a cor e os exagerados enfeites da porta. Respirou 
fundo, criando coragem, e abriu a porta devagar. Afinal, estava
apreensiva e at mesmo com um pouco de medo. Naquele momento ouviu seu 
nome e ficou petrificada, onde estava.
- Voc se casou com Jemima s por despeito, para se vingar de min
- estava dizendo Niobe - e, Valient, eu reconheo que tratei voc mal at 
me envergonho disso...
- Agora  tarde demais - respondeu o visconde.
- Assim que voc saiu eu me arrependi.
Jemima a conhecia bem para saber que aquele tom de voz era falso,
fingido, e que ela sempre o usava quando era conveniente.
- Foi papai que me obrigou a dizer que eu ia casar com o marqus. Eu pedi
a ele, eu implorei... disse que amava voc mas ele nem quiz me ouvir...
Voc sabe como papai  autoritrio e severo e eu tive medo
106
de desobedec-lo. - Ela se fazia de coitada, Jemima sabia. O visconde porm
no respondeu nada e ela continuou: - Por favor, acredite em mim, Valient!
Voc tem que acreditar que eu o amei! No pode ter imaginado que eu
quisesse casar com o marqus, sendo ele to velho e doentio, no ? Eu
queria voc... voc! Tanto quanto eu quero agora!
Jemima fechou a porta devagar, sem fazer barulho, sentindo que no 
suportava ouvir mais nada. Virou-se e subiu as escadas lentamente, como 
se de repente tivesse envelhecido cem anos. Entrou em seu quarto, foi at 
a janela, sentou-se ali perto e ficou olhando para fora com olhar 
ausente.
Depois do que ouvira sem querer, sabia que seu pequeno e precioso mundo, 
que ela havia construdo durante aquelas semanas, estava desabando a seus 
ps.
Agora j no era mais til ao visconde, ao contrrio, tornara-se um
pesado fardo, um empecilho a tudo o que ele mais desejava alcanar na
vida.
Ficou ali meditando e se perguntando o que deveria fazer. Ento, de 
repente, por am-lo tanto, ela comeou a pensar em como poderia ajudlo. 
Como poderia faz-lo feliz. Entendeu, de sbito, que s havia uma maneira 
de fazer isso.
Devia sair da vida dele do mesmo modo como entrara, inesperada e 
imprevisivelmente. Restava saber como fazer isso.
Por um breve instante, passou-lhe pela cabea fugir com Freddy conforme 
ele lhe pedira. Mas sabia que isso iria repercutir negativamente para o 
visconde. Ele ficaria mal aos olhos dos vizinhos e amigos que a haviam 
acolhido to bem.
Ela poderia divorciar-se dele, mas sabia que Niobe no esperaria, e o 
visconde corria o risco de perd-la outra vez, se nesse nterim 
aparecesse de novo algum mais importante do que ele. Um processo de 
divrcio demorava muito.
Jemima acabou achando que a nica soluo vivel seria ela morrer. Pensou 
no lago... em se afogar, mas concluiu que no poderia morrer na 
propriedade do visconde para no compromet-lo. Precisava pensar num bom 
modo.
Colocou a mo na testa. Sua cabea ardia e ela mal conseguia coordenar
107
 os pensamentos. S se lembrava da voz suave e sedutora de Niobe
dizendo a Valient que o amava.
Ficou imaginando como Valient se sentira ao ver aquela mulher linda lhe 
dizendo aquelas coisas. Linda, loira, de olhos azuis, pele suave, a 
mulher dos sonhos dele, a mulher que ele tanto amava! E que alm do mais 
era rica!
O corao de Jemima parecia querer saltar do peito, a dor sufocava 
Casando com Niobe, Valient poderia restaurar toda a propriedade e no 
precisaria mais recorrer  fonte para ganhar dinheiro. Poderia abrila ao
pblico gratuitamente. Poderia pagar as dvidas e ele e Niobe poderiam 
viver em Berkeley Square, com todo luxo e conforto, servidos por criados 
competentes.
Jemima pensava de novo que ela era o nico empecilho para que o visconde 
pudesse ter tudo isso no dia seguinte mesmo. No havia outra alternativa 
seno abandonar o homem que tanto amava. Mas como enfrentar um futuro 
sozinha, sem ele? No, no iria suportar. Preferia mesmo morrer. Era o 
nico modo de dar felicidade ao homem que amava. E, afinal, um grande 
amor no  assim? Despreendido, disposto a grandes sacrifcios?
Fechou os olhos, atormentada, e de repente sentiu a presena da me 
dentro de si, confortando-a e dizendo-lhe que tirar a prpria vida no
era despreendimento, mas sim fraqueza. Alm de ser pecado, pois a vida 
uma ddiva de Deus!
Jemima comeou a rezar baixinho e ento, de repente, achou uma soluo.
108
CAPTULO VII

- E da, o que foi que Niobe disse? - insistiu Freddy, pela milsima vez.
- Ela me disse que foi o pai que a obrigou a aceitar o casamento com o 
marqus - respondeu o visconde. - Contou que pediu e implorou, dzendo
que me amava, mas ele no quis escutar. - Freddy apenas exprimiu
descrena com uma interjeio de escrnio e o visconde continuou: - 
Ento, ela disse que ficou com medo de desobedecer ao pai mas que me 
amava e que eu no podia ter imaginado que ela quisesse casar com o 
marqus, sendo ele to velho e doentio.
Houve um silncio, depois Freddy, apesar de j ter ouvido a histria, 
perguntou:
- E voc, o que respondeu?
- Eu fiquei sem responder por um longo instante porque, por mais estranho 
que parea, percebi que Niobe no me atrai mais.
O visconde ergueu-se da cadeira, enquanto falava, e comeou a andar de um 
lado para outro da sala.
-  difcil explicar o que estou sentindo... - continuou ele, depois de 
uma pausa. - Eu tinha tanta certeza de que amava Niobe, eu a achava 
linda! Mas de repente, no sei o que aconteceu, a beleza dela no 
significa
109
mais nada para mim.  como se ela fosse uma bela esttua que a gente
admira, mas s!
- Em mim ela sempre provocou essa reao. Mas continue a com ar o que 
aconteceu.
- Acho que fiquei olhando para ela de modo estranho, achando quase 
impossvel que eu a tivesse amado tanto, pensando que seria para sempre, 
e de repente, ao v-la ali, diante de mim, no sentir a menor emoo... 
Era como se ela fosse uma dessas velhas que vm aqui beber gua. Ela 
simplesmente no significa mais nada para mim! - Ele continuava andando 
pela sala. - Niobe deve ter percebido que havia alguma coisa estranha, 
porque comeou a dizer que me amava e que sabia que eu a amava tambm e 
que precisvamos resolver nossa situao. Ela fez meno de me abraar, 
mas eu me afastei e disse que era tarde demais, que agora sou um homem 
casado e ns dois no tnhamos mais nada
a nos dizer.
- Deve ter sido uma surpresa e tanto para Niobe!
- Ela gritou e se atirou nos meus braos suplicando que eu me divorciasse
de Jemima, que anulasse o casamento, que o pai dela conseguiria
arranjar isso... que ns devamos nos unir... que ramos feitos um
para o outro... - O visconde fez uma pausa. - Foi quando ela menconou
o pai dela que eu entendi o que os dois tramavam e disse a Niobe
tudo o que penso dela e de sir Aylmer! Garanto que depois de tudo o
que ela ouviu, jamais nenhum dos dois falar comigo de novo!
- Graas a Deus! Agora, o importante  descobrirmos o que houve com 
Jemima!
- Hawkins disse que ela saiu l da capela para vir me contar uma nova 
ideia que ele havia sugerido.
- Pois , e isso quer dizer que ela deve ter ido para a sala, no momento 
em que Niobe estava com voc.
- E voc acha que ela ouviu sem querer Niobe dizer que me ama e no 
esperou para ouvir minha resposta?
-  a nica explicao possvel! Por que ela iria desaparecer assim, de 
repente, sem deixar o menor sinal?
Os dois a procuravam incessantemente, sem resultados, h mais de uma 
semana. i
110
No incio, Valient pensou que ningum tivesse notado a visita de
Miobe.
Bem mais tarde, entretanto, Hawkins foi lhe entregar o dinheiro depois
de ter fechado o balnerio e lhe perguntou:
- Milorde, o senhor sabe onde est milady? Ela no est preparando
o jantar como costuma fazer sempre a essa hora.
- Pensei que ela estivesse com voc! - respondeu o visconde.
- No, milorde, no est. Ela veio para c por volta de trs horas.
- Acho que ela deve ter ido descansar um pouco e pegou no sono
- disse o visconde, despreocupado. - V bater na porta do quarto dela
para acord-la, Hawkins.
- Sim, senhor.
Poucos minutos depois, ele voltou dizendo que Jemima no estava
no quarto nem em nenhum outro lugar da casa.
O visconde no se perturbou. O jornal tinha acabado de chegar e ele 
sentou-se para l-lo, pensando que depois iria contar a Freddy a visita 
de Niobe com os mnimos detalhes, embora no pretendesse contar a Jemima.
Contudo, no conseguiu concentrar a ateno na leitura. Estava preocupado 
em descobrir por que deixara de sentir atrao por Niobe. Era to 
estranho!
Antes, quando pensava nela, via-a cercada de uma aura especial que a 
distinguia de todas as outras mulheres, tornando-a atraente e 
irresistvel. Aquele dia, entretanto, ela lhe parecera comum, quase 
banal, e embora continuasse a ach-la bonita, descobriu que era uma 
beleza que no o atraa mais como homem. Achou que deveria conversar com 
Freddy, talvez ele soubesse lhe explicar por que mudara to subitamente. 
Quando Freddy chegou, no dia seguinte, encontrou o visconde aborrecido, 
irritado e ao mesmo tempo aflito por causa de Jemima.
- Ela simplesmente desapareceu, Freddy - disse ele. - Ela no veio fazer 
o jantar, no dormiu aqui esta noite e ningum tem a menor ideia do que 
possa ter acontecido a ela!.
Foi Freddy que descobriu, a partir do que Hawkins dissera, que ela devia 
ter ido falar com o visconde para contar a nova ideia e chegou na sala no 
momento em que Niobe estava l falando com ele.
111
Quando Valient contou a Freddy toda a conversa, este concluiu que ela devia ter ouvido a prima se declarando e por isso tinha ido embora, apesar de ele achar que 
no era do feitio de Jemima fugir e no enfrentar uma situao.
Mas para onde Jemima poderia ter ido? Os dois no tinham a menor ideia.
- Ela levou algum dinheiro? - perguntou Freddy.
- No sei - retrucou o visconde -, acho que levou pelo menos os dois guinus que trouxe com ela quando fugiu da casa do tio. E ela estava com o dinheiro para pagar 
uma conta, em uma loja da aldeia.
- E o resto do dinheiro ficou aqui?
- Ficou. Eu paguei o ordenado de Hawkins, a conta das garrafas e dos materiais que usamos na restaurao e o que sobrou est na minha escrivaninha.
- Isso significa que ela no pode ter ido muito longe. Jemima tinha algum outro parente, alm de sir Aylmer?
- Para a casa do tio ela no pode ter voltado. . . e no primeiro dia em que nos encontramos, ela disse que no poderia ir para casa dos outros parentes porque todos 
tinham muito medo de sir Aylmer e por isso no ficariam com ela.
- Mas, ento, em que diabo de lugar ela se escondeu?
- Eu j pensei e repensei em tudo o que ela me disse, durante o tempo em que estivemos juntos. Ela nunca mencionou nenhum amigo, nenhuma pessoa, nem mesmo uma ama-de-leite, 
por quem tivesse algum afeto especial. . .
- Como vamos fazer? No podemos procur-la a esmo, pelas ruas de Londres! - disse Freddy, desolado.
- Foi justamente o que pensei esta noite. No consegui dormir um minuto, tentando achar uma soluo. - O visconde fez uma pausa. Voc acha que eu deveria perguntar 
a sir Aylmer se ele sabe de alguma coisa? De algum lugar onde ela poderia estar?
- Ele no deve saber de nada. Tenho certeza absoluta que ele  o ltimo homem na face da terra a quem Jemima recorreria ou pediria proteo! Voc sabe como ele a 
tratou e, alm do mais, depois de ter
112
ouvido Niobe falar com voc daquele jeito, Jemima no ia se sujeitar a
ficar  merc da prima!
-  claro que no. Voc tem razo. Mas, ento, o que vamos fazer? Onde 
vamos procur-la?
Eram as mesmas perguntas desesperadas que ele e Freddy repetiam dia aps 
dia, esperando que Jemima voltasse. A nica coisa que acharam sensato 
fazer, foi no deixar a notcia do desaparecimento dela se espalhar. Era 
um segredo s entre eles.
Quando os vizinhos ou visitantes, que vinham buscar gua, perguntavam por 
ela, o visconde inventava uma desculpa dizendo que ela estava deitada 
descansando ou que tinha ido  aldeia.
- No podemos continuar assim! - disse Freddy revoltado, em dado momento.
Os dias se arrastavam e nada mais parecia igual sem Jemima.
O nmero de turistas estava aumentando, mas o visconde no se animava 
mais com o dinheiro que estava recebendo e s vezes nem se dava ao 
trabalho de contar as moedas, simplesmente jogava tudo na gaveta da 
escrivaninha.
Freddy trazia comida de casa, mas no era nem de longe o mesmo paladar 
das coisas que Jemima preparava. Nem mesmo o champanhe parecia ter o 
mesmo gosto. Os dois amigos ficavam bebendo, desanimados, e falando sobre 
Jemima.
- Precisamos fazer alguma coisa - disse Valient, num mpeto. Eu j sei o 
que vou fazer!
Antes que Freddy abrisse a boca para dizer qualquer coisa, a porta se 
abriu e Hawkins entrou na sala.
- Desculpe por no ter entregue antes, milorde - disse ele -, mas  que 
eu estava ocupado l na fonte quando isto chegou.
- O que  isso, Hawkins?
- Uma carta, milorde.
- Deve ser algum outro convite... - disse o visconde, pegando o envelope 
das mos do empregado. - J no sei mais que desculpa inventar para dizer 
que eu e Jemima no podemos comparecer ao jantar que um de nossos gentis 
vizinhos nos oferecem.
113
- Eles esto ansiosos para rev-la - disse Freddy - e ns tambm!
- com licena, milorde, - interrompeu Hawkins -, mas Emily est aqui e eu 
achei que o senhor gostaria de falar com ela.
- Emily? - disse o visconde, sem entender quem era.
- , milorde. O senhor no se lembra dela?  a domstica que trabalhava 
para o senhor, na casa de Berkeley Square, e que continuou trabalhando 
para o sr. Roseburg quando ele se mudou para l.
- Ah ! Emily! - lembrou-se o visconde. -  claro que quero falar com ela 
e saber o que est acontecendo em Londres!
- O que ser que ela est fazendo aqui, se trabalha para Roseburg?
- perguntou Freddy.
- Os pais dela moram na aldeia, sir - explicou Hawkins - e ela veio aqui 
para visitar milady. Emily gosta muito dela.
O visconde e Freddy trocaram um olhar significativo.
- Traga-a aqui, daqui a pouco, Hawkins - disse o visconde. Oferea a ela 
um ch, antes.
- Ela estava me ajudando l na fonte, milorde, e agora que fechou ns
dois amos tomar um lanche.
- Pois ento, quando acabarem de comer, traga Emily para falar comigo.
- Sim, senhor.
- Eu estava pensando... - disse Valient, assim que o criado saiu e fechou 
a porta. - Talvez Emily possa nos ajudar. Talvez ela tenha alguma ideia 
de onde Jemma possa estar!
- Eu pensei a mesma coisa - disse Freddy.
- Lembro-me de que Jemima gostava de Emily... ela no gostava dos 
Kingston, e com razo.
Enquanto falava, ele abriu o envelope com displicncia, mas quando leu a 
carta exclamou:
- Ah, meu Deus! No pode ser verdade!
- O que foi? - perguntou Freddy, aflito. O visconde, em vez de
responder, entregou a carta ao amigo e foi at
a janela onde ficou parado, olhando o vazio.
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Freddy pegou a carta apreensivo, com um mau pressentimento e copeou a 
ler:
"Milorde,
 com com grande pesar que escrevo ao senhor para inform-lo de
que h vrios dias fui chamado para confortar uma jovem que estava
morrendo de varola. Nada mais podia ser feito para salvar a vida dela,
mas antes de morrer, ela me disse que era a viscondessa Ockley e pediu-ne
que o informasse de seu falecimento.
Ela morreu logo depois de ter falado comigo e, como  costume nesses 
casos, para evitar propagao da doena, o corpo dela foi queimado logo 
em seguida.
S me resta expressar ao senhor minhas profundas condolncias por essa
triste perda.
Sem mais, subscrevo-me respeitosamente, um criado, s suas ordens, John 
Brown. O Pastor. "
Freddy leu e releu, e ficou perplexo olhando para a folha de papel em 
suas mos.
- Ela... ela est morta! - disse o visconde.
Houve um breve silncio, depois Freddy falou, abruptamente:
- No acredito nisso!
- Como assim... no acredita?
-  muita coincidncia acontecer assim, justo nesse momento... no est 
vendo que  a soluo de seu problema?
- Que problema? - perguntou o visconde, atnito.
Freddy ergueu-se e ficou de costas para a lareira, falando com 
empolgao.
- Olhe s, veja se meu raciocnio faz sentido - disse ele ao amigo.
- Jemima ouve Niobe dizer que ama voc e que sabe que voc a ama, que 
vocs dois devem se casar. Jemima desaparece, mas sabe que o nico jeito 
de voc ficar livre dela para se casar de novo  a morte. Ento, ela 
morre... ou pelo menos quer nos fazer acreditar que morreu!
- Est querendo dizer que isso  mentira? - perguntou o visconde.
- Olhe bem isso - disse Freddy, entregando a carta a ele. - No acha que 
h algo estranho a?
115
O visconde pegou a folha de papel, releu-a com ateno e de repente exclamou:
- No traz nenhum endereo!
- Pois , foi o que notei - disse Freddy - e a pessoa que escreveu alm de ter o nome e sobrenome mais comuns, pois existem centenas de John Brown, ainda  apenas 
"O Pastor".
- E o que isso significa?
- Que seria muito mais difcil de se descobrir quem , do que se dissesse ser o proco e indicasse de que parquia.
- Agora estou entendendo onde quer chegar.
- E, alm disso, varola  uma doena muito conveniente para ter sido escolhida como causa mortis, pois como est escrito a mesmo, queima-se o corpo da vtima para 
que no se propague a doena!
- Mas, por que. . . por que Jemima faria isso?
- Porque ela ama voc! - retrucou Freddy, com veemncia.
- Ela me ama? E como  que voc sabe disso?
- Porque ela me disse.
- E por que ela foi dizer isso a voc?
- Se quer mesmo saber a verdade, foi porque eu pedi a ela que fugisse comigo!
O visconde ficou estupefato, olhando com perplexidade para o amigo. Depois de alguns instantes em silncio, ele falou pausadamente, destacando palavra por palavra.
- Voc pediu para Jemima. . . minha esposa. . . para fugir com voc? Pensei que voc fosse meu amigo!
- Mas eu no estaria lhe roubando nada. . . voc no gosta dela. Eu amo Jemima, eu a amo desde o primeiro momento em que a vi! E para ser sincero, Valient, eu fico 
agoniado de v-la escravizada a voc dessa maneira, satisfazendo seus menores desejos, tentando a todo custo fazlo feliz. . . e voc nem nota que ela existe!
- Se outro homem tivesse me dito isso que voc acaba de me dizer, eu o esmurraria!
- Ah, pelo amor de Deus, Valient, no se faa de dramtico, agora. No adianta representar para mim. Eu sei que voc no ligava a mnima para Jemima antes dela sumir, 
e voc sabe disso!
116
 - Acho que isso  verdade. . . - disse o visconde, com certa relutncia. - Realmente, s quando ela foi embora  que eu percebi como Isso aqui fica diferente sem 
ela! Essa casa ficou sem graa, silenciosa demais. .. sinto falta do riso de Jemima! Vou lhe dizer uma coisa, Freddy. Se ela est viva como voc acha, eu vou ter 
de encontr-la. Ela tem que voltar! Eu devia ter imaginado que Niobe iria estragar minha
vida de um jeito ou de outro!
  - Agora no adianta pr a culpa em Niobe, o importante  encontrar Jemima.
 - Eu vou encontr-la! - disse o visconde, decidido. - Eu sinto
 que you encontr-la. E agradeo a voc, Freddy, por ter me lembrado que ela  minha mulher!
 - Acho bom lembrar mesmo, porque seno. . .
 - Voc que se atreva a falar mais. . . - comeou o visconde a dizer, mas nesse momento a porta se abriu.
- Aqui est Emily, milorde - anunciou Hawkins.
Jemima terminou a orao que as crianas repetiram em coro, junto com ela, depois sentou-se para tocar o harmnio.
- Quem vai escolher o hino para hoje? - perguntou ela.
As crianas, cujas idades variavam entre trs e nove anos, se amontoaram em torno dela.
- Que tal AU Things Bright and Reautiful? - sugeriu uma das meninas mais velhas.
- Boa ideia! - respondeu Jemima. - Essa todos vocs conhecem bem.
Ela tocou os primeiros acordes no harmnio e as crianas ficaram em silncio, preparando-se para cantar.
Foi o proco quem sugeriu a Jemima, quando ela voltou  pequena aldeia onde havia morado com seus pais, que ela deveria lecionar na escola. Estavam mesmo precisando 
de professora, pois a outra, que era uma ex-governanta, tinha morrido.
Quando decidiu ir para Lower Maidwell, Jemima sabia que l era o nico lugar onde poderia encontrar algum que a ajudasse.
117
No era uma viagem muito longa, embora tivesse precisado tomar trs 
coches, e depois de ter dormido muito desconfortavelmente numa hospedaria
de beira de estrada, ela chegou  aldeia na manh seguinte e foi direto 
parquia.
O velho proco, que tinha sido amigo de seus pais, estava l. Quando
Jemima contou a ele como era infeliz na casa do tio e como ele a 
maltratava, o proco achou que ela fizera bem em ter ido embora.
- S que, agora, preciso arranjar um lugar para morar - disse ela -, e 
preciso ganhar algum dinheiro.
O proco lembrou que a velha senhora que trabalhara para a me de
Jemima talvez pudesse lhe alugar um quarto e de repente teve a ideia de
que ela poderia lecionar na escolinha.
- Voc no vai ficar rica com isso, Jemima, a escolinha da parquia 
pobre e no temos muito dinheiro para pagarmos bons salrios a professores,
mas enquanto voc no arranja coisa melhor, j  uma ocupao!
- Eu lhe fico muito grata pela sua gentileza, reverendo - disse Jemima.
- E estou certa de que vou adorar dar aulas para as crianas!
- Espere s at conhec-las! Talvez voc mude de ideia, depois.
Disseram-me que so muito levadas e desobedientes!
Mas ela nem se importou com isso. Estava to contente por ter encontrado
um lugar para morar e um trabalho para fazer que por um breve
momento sentiu aliviar o sofrimento e a infelicidade que lhe oprimiam
o peito desde que abandonara o visconde.
Ela sentia tanta saudade dele! No parava um s instante de pensar
nele e o dia todo imaginava o que estaria acontecendo l no velho
mosteiro, quela hora.
A ideia de fazer o visconde acreditar que ela havia morrido pareceulhe a
nica soluo para deix-lo livre, sem ter de se matar de verdade,
Suicidar-se era muito difcil e embora estivesse sentindo-se muito
infeliz, seu instinto de conservao era mais forte. Alm disso, sabia
que o suicdio era pecado.
Sentia sua vida sombria e sem sentido longe dele. Amava-o, agora,
mais do que nunca, mas estava decidida a viver das recordaes que
tinha dele.
Ficava lembrando as coisas que ele dissera, o jeito dele falar, de
118
olhar... e principalmente aquele momento mgico em que ele a rodara no
ar, beijara-a nas faces e depois beijara-a nos lbios.
Sabia que aquele beijo no tinha significado nada para ele, mas jamais 
esqueceria o conta to daqueles lbios to amados.
Os dias foram passando e ela se mantinha to ocupada que era menos
ifcil suport-los. Antes de comear a lecionar, tivera de pr em ordem
a escolinha da parquia, que estava abandonada desde a morte da outra
professora e havia sido transformada em depsito. Foi preciso limpar
tudo sozinha, pois no havia ningum para ajud-la.
Na verdade, Jemima poderia ter pedido ajuda a alguns pais de alunos, mas 
preferiu no fazer isso. Quanto mais rduo fosse o trabalho, menos tempo 
teria de pensar no visconde e de sofrer a saudade dele. Assim tambm 
ficava bem cansada e quando se deitava dormia logo.
Quando o trabalho pesado acabou, suas noites passaram a ser um tormento. 
O amor pelo visconde tornava-se uma agonia fsica e mental. A lembrana 
dele era um punhal cravado em seu corao cuja dor era insuportvel.
Ela sempre imaginou que o amor fosse uma coisa boa e bonita que dava  
pessoa segurana e proteo. Mas um amor perdido era algo muito 
diferente. Era uma tortura lenta e contnua que roa o peito por dentro.
s vezes Jemima pensava que deveria ter fugido com Freddy, quando ele lhe 
propusera, assim daria motivo para o visconde divorciar-se dela para se 
casar com Niobe. Mas logo em seguida se arrependia da ideia, pois sabia 
que isso seria contra seus princpios de sinceridade. Sabia que, se 
tivesse agido assim, no estaria sendo honesta com seus sentimentos e 
magoaria no apenas Freddy mas tambm o visconde.
Gostava muito de Freddy, mas no o amava e jamais poderia ser para ele a 
esposa que ele merecia. Amava o visconde com todas as suas foras e nunca 
deixaria de am-lo.
Por isso, resolveu escrever a carta dizendo que morrera de varola. Achou 
que seria uma boa soluo e uma explicao razovel que impediria Valient 
de reclamar o corpo para enterr-lo.
Precisou pagar um portador para que levasse a carta para Londres e a 
colocasse no correio, e no tinha muito dinheiro para esbanjar.
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Felizmente a sra. Barner no cobrava muito caro pelo quarto e pelas
refeies. Embora a comida no fosse como a que Jemima estava 
acostu.mada a fazer, ela se dava por satisfeita, afinal no tinha mesmo apetite
nenhum.
No comia quase nada e estava emagrecendo a olhos vistos, ela prpria se
comparara s heronas de novelas, definhando de amor.
Os nicos dois vestidos que trouxera j estavam largos em seu corpo. S 
pudera trazer dois, na pequena mala que tinha. Os outros todos deixara 
para trs e jamais lhe ocorreria que ao v-los dependurados no armrio de 
seu quarto, o visconde achasse que isso era indcio de que ela voltaria.
- Qual  a mulher que vai a algum lugar sem levar suas roupas? disse ele 
a Freddy. - Lembra-se daquela francezinha que conhecemos? A quantidade de 
malas que ela levava consigo?
- Ora, voc no pode compar-la a Jemima! - protestou Freddy.
- No,  claro que no. Mas Jemima  mulher... e estava tofeliz com os
vestidos novos que compramos para ela!
- E ficava linda com eles! - disse Freddy, baixinho, de modo que o
visconde nem chegou a ouvir.
Jemima, por sua vez, no sentia falta das roupas bonitas que deixara l.
Ela usara aqueles vestidos porque queria fazer boa figura ao lado do 
marido, queria que ele se sentisse orgulhoso dela, mas sempre tivera a 
sensao desagradvel de que se ela se vestisse com trapos a reao dele 
seria a mesma.
O que a preocupava, no momento, era saber como faria quando os vestidos 
que trouxera se gastassem e ela precisasse de outras roupas. No teria 
dinheiro nem para comprar os panos e fazer ela mesma as roupas, como 
antes.
O proco havia lhe prometido arranjar outro trabalho, alm de lecionar na 
igreja, e j se passara um ms sem que surgisse nada. Talvez fosse melhor 
falar com ele de novo e insistir no assunto.
Enquanto isso, passava as manhs ocupada com as crianas e ela gostava de
ensin-las. Depois de algum esforo, no incio, conseguira impor
120
a disciplina sem ser rgida. Conquistara as crianas com amor e energia.
Aagora eram todas bem-comportadas e a respeitavam muito. S lamentava
ter que aceitar o dinheiro que os pais pagavam para que ela lecionasse.
Era pouco, mas eram todos pobres e qualquer dinheiro representava um
sacrifcio para eles. Contudo, ela tambm era pobre e precisava daquele
sustento.
Em alguns condados, eram ricos paroquianos que mantinham a escola para os
pobres que podiam assim estudar de graa, mas Lower Maidffell era uma 
aldeia pequena e pobre e no havia nenhum rico parono na vizinhana.
O hino chegou ao fim e o "Amm" foi cantado com convico por aquelas
crianas.
Jemima ergueu-se e fechou a tampa do harmnio.
- Por hoje  s, crianas! Estejam aqui amanh, s dez horas em ponto, e 
no se esqueam o que aprenderam at agora.
- Sim, senhora. At logo, professora!
Jemima tinha ensinado a elas com se comportar socialmente, como 
cumprimentar com educao e vrias atitudes de cortesia. E elas tinham 
aprendido direitinho.
Em seguida, saram apressadas e l fora ela os ouvia gritar e rir 
enquanto corriam pela alameda que ia at a rua.
Jemima foi at a mesa, reuniu os livros que estavam ali e levou-os para
um armrio. Enquanto os colocava na prateleira, ouviu passos aproximando-
se da porta da classe que dava para o jardim.
Pensou que fosse o jardineiro do proco, que s vezes costumava guardar 
ali suas ferramentas de trabalho, para ficar mais fcil no dia seguinte.
- Eu j vou indo, sr. Jarvis - disse Jemima sem se virar. Fechou a porta 
do armrio, enquanto falava, e estranhou que o jardineiro no tivesse 
respondido nada. Geralmente, ele era bastante tagarela.
Olhou por sobre o ombro e no pde conter uma expresso de espanto.
Parado ali, na sala de aula, muito imponente e bem-arrumado, estava o 
visconde.
Por um momento, Jemima ficou paralisada como se estivesse grudada no cho 
e no conseguiu falar. E era como se o mesmo tivesse acontecido
121
ao visconde, pois ele apenas ficou parado, contemplando-a. Depois
afinal, num murmrio que ele mal pde ouvir, Jemima perguntou:
- Como... como foi que me encontrou... Ento o visconde aproximou-se 
dela, dizendo:
- Eu  que pergunto como  que voc foi inventar esse diabo dessa fuga?
Como  que pde me mandar aquela carta horrvel, dizendo que estava 
morta?
Ele estava to bravo que Jemima tremeu, embora estivesse feliz de v-lo
ali.
Mal podia crer que era ele, real, em carne e osso, que estava diante de
seus olhos, que falava com ela... aquela voz adorada que ela jamais
pensara tornar a ouvir algum dia!
- Eu... eu... achei que era a melhor... soluo - gaguejou ela.
- Para mim?
- Eu sabia que voc ia querer ficar livre...
- Voc ao menos poderia ter me perguntado antes o que eu queria.
- No precisava perguntar... eu ouvi o que Niobe disse a voc...
- J que voc ouviu isso, devia ter esperado um pouquinho mais para ouvir 
tambm a resposta que eu dei aos absurdos que sua prima me disse! - 
Jemima arregalou os olhos e ento o visconde perguntou:
- Mas o que  que voc anda fazendo? Est to magra!
- Eu... eu estou bem.
- Ento, est melhor do que eu - retrucou o visconde. - Voc tem ideia do 
mal que causou, desaparecendo desse jeito maluco? Freddy e eu quase 
enlouquecemos de tanto pensar como encontr-la!... falavamos tanto em
voc que suas orelhas deviam viver ardendo...
Jemima cruzou as mos.
- Quer dizer que... voc se importou com meu desaparecimento?
- perguntou ela, com voz tmida.
- Se me importei? - a voz do visconde se elevou. -  claro que me 
importei! Se eu fosse um grosseiro como seu tio, devia lhe dar uma surra 
agora, por ter fugido assim, e ter me mandado uma carta mentirosa! Eu j 
estava a ponto de contratar um detetive para encontr-la!
- Ah, Valient, voc no fez isso, no ? - horrorizou-se ela. Eu sei que 
eles cobram muito caro!
122
- O dinheiro no me importava, desde que pudesse encontr-la!
Os olhos dele encontraram os dela e o jeito como a olhou fez o corao de 
Jemima bater mais rpido.
- Sinto muito - disse ela, para no demonstrar o que estava sentindo -, 
peo que me desculpe se causei transtorno. Eu estava s tentando... faz-
lo feliz.
- Pois voc s conseguiu me deixar aflito, frustrado e terrivelmente 
infeliz.
- No foi minha inteno... eu queria... eu pensei que voc quisesse 
casar com Niobe e achei que essa era a nica maneira de voc poder se 
casar com ela.
- Como j disse, se voc tivesse escutado s mais um pouquinho, teria me 
ouvido dizer a Niobe tudo o que penso dela, e ainda ter acrescentado que 
no desejava encontr-la nunca mais!
Jemima respirou fundo.
- Voc disse mesmo isso tudo a Niobe?
- Isso e muito mais! Posso lhe garantir uma coisa... nenhum de ns nunca 
mais vai ser importunado por sua prima ou o seu tio.
- Mas... eu tinha certeza de que voc a amava!
- Eu pensei que a amasse - admitiu ele, com sinceridade -, mas eu estava 
enganado e muito! - O olhar de Jemima se iluminou. Antes de eu dizer 
qualquer outra coisa, quero que voc me diga por que voc estava to 
preocupada com minha felicidade. Eu posso no ter sido um bom marido, 
Jemima, mas eu lhe dei um lar que voc dizia gostar e eu no posso crer 
que voc prefira ficar aqui em vez de estar l.
-  claro que no! Voc sabe que eu... eu adoro o velho Mosteiro e gostei 
muito de ter morado l.
Houve uma breve pausa.
- E... era s a casa que voc amava? - perguntou o visconde. Jemima 
apenas respirou fundo e baixou as plpebras, corando.
- Quero que voc responda, Jemima, e  muito importante que seja sincera.
Ela ficou trmula e, sem conseguir falar, virou-se de costas. Ele a 
segurou pelos ombros, de leve, obrigando-a a virar-se de frente.
- Responda, Jemima, por favor! Era s a casa que voc amava? 123
Ela ergueu os olhos devagar e encontrou o olhar dele. Seu corao 
palpitava. Ele a puxou para mais perto de si: - Diga-me, por favor. 
Jemima. Quero ouvir voc dizer...
- Eu... eu amo voc - disse ela baixinho.
- Era isso que eu queria ouvir, porque, meu amor, eu tambm amo voc.
Ele disse isso e envolveu-a nos braos, depois beijou-a na boca.
Jemima sentiu-se no cu, arrebatada por um xtase tal que era impossvel 
descrever com palavras. Finalmente, pde dar vazo ao que sentia por 
Valient h tanto tempo, e naquele beijo entregou a ele seu corpo, sua 
alma e seu corao.
Os dois perderam a noo do tempo entregues aos beijos, abraos e 
carcias. Era como se estivessem vivendo num mundo  parte, num paraso.
- Meu amor, minha adorada... - disse o visconde, com voz embargada, entre 
um beijo e outro. - Como poderia perd-la?
- Voc me ama mesmo? Nem posso acreditar... jamais pensei que voc 
pudesse me amar...
- Eu amo voc como nunca pensei que fosse possvel amar algum S que eu 
no tinha percebido... s me dei conta desse amor quandc Freddy me contou 
que tinha pedido para voc fugir com ele.
- Freddy. contou isso para voc?
- Contou e eu tive vontade de mat-lo! Mas foi s ento que descobri que 
eu nunca deixaria outro homem roubar voc de mim, mesmo que voc 
quisesse.
- Eu jamais iria querer... - murmurou Jemima. - Eu amo voc... sempre 
amei, desde o primeiro instante em que o vi!
- Gostaria de poder dizer o mesmo, mas eu fui to tolo que fiquei 
imaginando que amava sua prima.
- Mas... ela  to linda!
- No chega nem a seus ps! Voc  to adorvel! E sabe o que eu mais 
gosto em voc, que me deu mais saudade nesse tempo em que voc esteve 
ausente?
- No... o que foi?
124
- O seu riso, meu amor. Eu acostumei tanto com o som adorvel de seu 
riso, que quando voc se foi tudo ficou de repente triste e silencioso e
eu me senti solitrio como nunca! Voc alegrava a casa e a minha vida...
eu aprendi a rir com voc...
Jemima abraou-o e encostou a cabea no peito dele.
- Por favor... perdoe-me e deixe-me voltar para casa.
- Eu no vou deixar, eu vou levar voc para casa. Estava decidido a
lev-la nem que fosse arrastada por uma corda, se voc se recusasse a!
Jemima riu e o som cristalino e gracioso de seu riso alegrou a sala.
- Que maravilha, Valient! S voc mesmo para dizer uma coisa dessas!
- Eu falei srio. E vou avisar uma coisa: quero que fique bem claro,
Jemima... se eu pegar voc flertando com Freddy eu o expulso
de casa! Voc  minha mulher e no vou deixar que voc esquea disso!
Como se eu pudesse me esquecer! Eu amo voc, Valient. E agora
que estou a seu lado de novo, minha vida voltou a brilhar. Estou muito
feliz!
- Eu tambm. Mas, agora, pelo amor de Deus, vamos embora para casa, 
depressa. O balnerio est um sucesso, cada vez mais cheio de gente e no 
h garrafas que cheguem. Temos dezenas de convites para jantar que nossos 
vizinhos no Condado no param de mandar! Estou ficando maluco para dar 
conta de tudo sozinho!
- Agora no vai mais ser preciso. Ah, meu querido Valient... Ser que no 
estou sonhando?  mesmo verdade que vou voltar para casa com voc?
- Felizmente,  verdade! E chega de perdermos tempo aqui, falando... 
vamos voltar de uma vez! Pegue seu chapu e vamos embora.
- Preciso ir at meu quarto pegar minhas coisas - riu ela -, e despedir-
me da sra. Barner!
- Ento, vamos, depressa!
- Mas como foi afinal que me encontrou? Voc no disse!
- Foi Emily quem adivinhou onde voc deveria estar.
- Emily!
- Ela foi at o Mosteiro para falar com voc porque no est gostando de 
trabalhar para os Roseburg e quer trabalhar para voc de novo.
125
Eu prometi o emprego a ela se encontrasse voc aqui onde ela achou que 
voc estaria.
- Eu adoraria que Emly trabalhasse para mim... mas ser que pderemos
pagar?
- Se voc visse a quantidade de dinheiro que estamos recebendo com o 
balnerio! Logo vamos poder contratar um cozinheiro e um mordomo tambm. 
 verdade que eu me desinteressei um pouco pela fonte, porque estava 
preocupado com voc...
- Meu Deus! Eu preciso voltar imediatamente, ento! - Jemima fez uma 
pausa. - Quer dizer que Emily se lembrou das histrias que eu contava 
para ela, sobre a casa de meus pais e da cidade onde vivamos?
- Lembrou-se direitinho, at do nome da cidade! Graas a Deus! E  claro 
que vou empreg-la em casa. - Jemima sorriu para ele, E tem outra pessoa 
que eu vou levar para casa e que vai ter que ficar l para o resto da 
vida...
Jemima riu feliz.
- Eu no tenho a menor inteno de abandon-lo de novo, Valient... Ah, 
meu amor, se voc soubesse como estava infeliz longe de voc, sentindo-me 
to sozinha e triste...
- Ficou sofrendo  toa, por culpa sua mesmo - disse ele, repreendendo-a 
com ternura. Depois abraou-a de novo. - Eu amo voc! Quero repetir isso 
milhes de vezes... cada minuto, cada segundo at voc ter certeza. Voc 
 minha, Jemima, e eu no posso viver sem voc!
- Ah, como eu queria ouvir isso de voc! Pensei que jamais fosse ouvir... 
eu no podia lhe dar nada do que voc queria.
- Eu tenho tudo o que quero, agora - disse ele, apertando-a de leve 
contra o peito. - Voc pode achar difcil de acreditar, Jemima, mas 
quando estava vindo para c, eu vinha pensando que foi bem divertida a 
vida de pobre a seu lado. Talvez melhor do que se eu fosse rico!
- Est falando srio?
- Estou, sim. Nunca me senti to bem em minha vida. Foi to divertido e 
interessante tornar minha velha casa habitvel de novo, arrumar a fonte, 
abrir o balnerio... e at mesmo carregar todo aquele maldito cascalho! - 
Ele riu e estreitou ainda mais o abrao. - Agora, s me falta o seu amor
para minha felicidade ser completa...
126
- Voc sabe que eu o amo... e muito - murmurou ela, com os lbios bem
perto dos dele.
- Foi tudo uma aventura maravilhosa e excitante, tal como voc havia dito
que seria. E tudo o que fizermos, ainda, no futuro, ser tambm
maravilhoso porque estaremos fazendo juntos.
S ento ele a beijou de novo, um beijo ardente, exigente e possessivo.
Era a primeira vez que a beijava daquele modo e Jemima sentiu uma outra 
emoo despertando dentro dela, fazendo com que o beijasse da mesma 
maneira. Instintivamente, ela sabia que essa era a outra face do amor, 
igualmente bela e divina.
- Pelo amor de Deus, Jemima... - disse ele ofegante -, vamos embora 
logo... eu quero fazer amor com voc... eu quero voc. estou maluco! J 
perdemos tempo demais! - Ele soltou o abrao e pegou-a pela mo puxando-a 
para a porta. - Vamos! Depressa!
Ele a fez correr pela alameda em direo  carruagem que estava parada 
ali em frente.
- Mas, Valient, eu preciso avisar a senhora...
- No vai avisar ningum. Vamos direto para casa!
Quando chegaram  carruagem, ele a ergueu nos braos e colocou-a para 
dentro. Depois deu uma moeda para um garoto que ficara segurando os 
cavalos, subiu depressa na boleia e pegou as rdeas, instigando os 
animais com o chicote.
Os cavalos saram em disparada, fazendo a carruagem erguer uma nuvem de 
p. Ela no pde deixar de rir daquele jeito maluco dele, levando-a 
embora assim sem deixar que ela se despedisse nem mesmo do proco. Era 
como se a tivesse raptado. Mas ela estava feliz e pelo sorriso dele sabia 
que ele tambm estava. Afinal, os dois se amavam e estavam juntos, indo 
para a casa onde poderiam dar vazo a todos os sentimentos e demonstrar o 
quanto se amavam.
FIM
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QUEM  BARBARA CARTLAND?
As histrias de amor de Barbara Cartland j venderam mais de cem milhes
de livros em todo o mundo. Numa poca em que, segundo a prpria Barbara,
a literatura d muita importncia aos aspectos mais superficiais do sexo,
o pblico se deixou conquistar por suas heronas puras e seus heris
cheios de nobres ideais. E ficou fascinado pela maneira como constri
suas tramas, em cenrios que vo do esplendor do palcio da rainha
Vitria s misteriosas vastides das florestas tropicais ou das montanhas
do Himalaia.
A preciso das reconstituies de poca  outro dos atrativos dessa
autora inglesa que, alm de j ter escrito mais de trezentos livros, 
tambm historiadora, teatrloga, conferencista e oradora poltica. Mas
Barbara Cartland se interessa tanto pelos valores do passado quanto pelos
problemas do seu tempo. Por isso, recebeu o ttulo de Dama da Ordem de
So Joo de Jerusalm, por sua luta em defesa de melhores condies de
trabalho para as enfermeiras da Inglaterra, e  presidenta da Associao
Nacional Britnica para a Sade.

Fim
